laudas

toucinho frito

. 1 minuto de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
toucinho frito

certo atleta vegano
exata uma vez ao ano
um seu ato proscrito
  precisava esconder
  pois dormindo se punha a comer
toucinho frito

Inúmeros os meios da auto-sabotagem, variadíssimas as vias da própria ruína. O amor aos animais e à forma física se haviam combinado ainda na adolescência; discrepavam, porém, as paixões: como crescer massa muscular sem a cruel proteína animal? Contra os teimosos, teimara de corpo, mente, alma e dieta; tornara-se não apenas atleta, mas modelo fitness vegano. Corpo e carreira construíra de compaixão e carboidratos. Desde o primeiro ano, porém, estranho sonambulismo lhe sobrevinha. Exatamente na madrugada do quarto dia de outubro, dormindo assaltava a geladeira, fritava tiras de toucinho e as comia. Na casa parental, fora difícil saber-se o autor daquilo, mas agora morava só. Que diabos faz aqui toucinho? Não possuía qualquer memória de o comprar, jamais o vira à geladeira. A um amigo, enfim, pedira ajuda. Tudo testemunhara na precisa noite; acompanhara-o sem o despertar (receava acordar um sonâmbulo). Foi repreendido pelo atleta no dia seguinte: deixou-me comer aquilo? Tem coisas mais sérias em que pensar—respondeu o outro, que matutara noite adentro a resposta para o que sabia que ouviria—: sua carreira depende do veganismo; ainda que não conte a mais ninguém o que se passa, é provavelmente você mesmo quem compra o toucinho. Alguém algum dia o pode reconhecer. Até então, não ocorrera ao desorientado atleta a simplicidade da explicação que lhe dera o amigo. Coligiu-se: urgia agir. Assim sendo, ali estava: na sala, pela primeira vez reunidos, sua recém-contratada terapeuta holística, seu contador e seu relações públicas.