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Tradução automática e inteligência artificial

. 2 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
Tradução automática e inteligência artificial

O jornalista e tradutor Christian Schwartz, recentemente, publicou um artigo na Folha de São Paulo sobre o avanço da inteligência artificial sobre o campo da tradução. Você pode conferir o artigo integral clicando aqui.

Como tradutor, julgo necessárias algumas ponderações sobre os apontamentos de Schwartz, que listo abaixo:

Existe uma diferença importante entre tradução automática e tradução assistida por computador (computer-assisted translation ou CAT). A reportagem afirma que 99% das traduções são feitas “com o auxílio de máquinas”. Se a redação do texto foi precisa, trata-se de CAT; tradutores humanos ainda são responsáveis pela versão final nestes casos.

Mesmo supondo que se trata de traduções inteiramente automatizadas—ou seja, traduções cujos agentes humanos são programadores, não tradutores—, duas questões importantes devem ser levantadas:

  1. quais gêneros textuais são passíveis de tradução inteiramente automatizada?
  2. qual a extensão de um texto que consegue ser traduzido dessa forma?

No que diz respeito a gêneros, o artigo dá o exemplo de uma edição italiana de poemas de Emily Dickinson traduzidos automaticamente para o italiano. Honestamente, soa-me mais como um experimento vanguardista que como uma tradução; aproxima-se mais de uma reinvenção da escrita automática surrealista que de um esforço tradutório em sentido estrito.

O fato mesmo de a editora haver escolhido Dickinson nos leva à segunda pergunta; a obra da poetisa é caraterizada por poemas curtíssimos, e portanto a extensão dos textos pode haver influenciado sua escolha. Seria possível realizar uma tradução automática de uma obra poética mais extensa, ou mesmo de um poema longo e denso como Daffy Duck in Hollywood de John Ashbery? E que dizer dos seguintes versos de Angélica Freitas, extraídos do poema Um útero é do tamanho de um punho:

um útero expulsa os óvulos
óbvios
vermelho =
tudo bem!
isti tidi bim
vici ni isti grividi

Como tradutor, geralmente uso ferramentas de tradução automática como dicionários, a serem consultadas sempre em conjunção com dicionários propriamente ditos e com buscas online; as pesquisas são, em sua grande maioria, no nível da palavra. O máximo que me ocorreu fazer foi pesquisar uma sentença completa, com objetivo de conferência pessoal—ou seja: o resultado, mesmo estropiado, serviria para que eu compreendesse um texto, sem intenção de que fosse publicada a tradução.

Se a automação dos serviços é uma benção duvidosa que ameaça os empregos e já começa a atingir profissões mais especializadas, é importante percebemos que este processo tem seu tempo. No devido tempo, devemos ser capazes de nos reinventarmos.