três haicais pandêmicos comentados

três haicais pandêmicos comentados

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Já comentei anteriormente cinco poemas lançados no volume haicais um país pandêmico; seguem abaixo notas a mais três poemas.


para nosso melhor presidente

neto, irmão, esposa:
meus insepultos abraços
velando seguis

É o único poema da coleção dedicado a alguém. A 10 de março de 2021, o ex-presidente Lula discursou na sede do Sindicato dos Metalúrgicos, após haver reconquistado seus direitos políticos. Na ocasião, comentou algumas de suas perdas recentes: a morte da esposa, dona Marisa Letícia, e a impossibilidade de ir ao enterro do irmão; não mencionou a silenciosa e distante despedida que lhe permitiram dar ao neto. Habilidosa, embora indireta e não incorretamente, comparou seus sofrimentos ao dos brasileiros—acossados pela fome, pelo desemprego e principalmente despedindo-se em massa de parentes e amigos vitimados pela pandemia—:

Então, se tem um brasileiro que tem razão de ter muitas e profundas mágoas, sou eu. Mas não tenho. Sinceramente, eu não tenho porque o sofrimento que o povo brasileiro está passando, o sofrimento que as pessoas pobres estão passando neste país é infinitamente maior do que qualquer crime que cometeram contra mim. É maior do que cada dor que eu sentia quando estava preso na Polícia Federal.

Sua recobrada de direitos políticos, para, em seguida, engajar-se na busca por vacinas e insumos, foi o primeiro momento de verdadeiro alento desde o início da pandemia—que, à época do discurso, completava seu primeiro ano do Brasil. Foi o primeiro momento em que senti alguma esperança ao longo de um ano difícil, e de um mês falto em serotonina.

Leia a íntegra do primeiro discurso de Lula após anulação de condenações da Lava Jato
O ex-presidente falou por mais de uma hora em São Bernardo do Campo (SP) e respondeu a questionamentos da imprensa

cabe ao genocida
governança, não matança
gestor do extermínio

Ao contrário da postura demonstrada pelo ex-presidente Lula, o atual ocupante da cadeira presidencial demonstrou nula empatia: durante uma coletiva de imprensa, ao ser indagado sobre o número de mortes, afirmou não ser coveiro; noutra ocasião, afirmou: Querem me tachar de genocida, quem que eu matei?

Sozinho, dispondo apenas de recursos próprios, ser humano algum é capaz de matar milhares de pessoas num único dia, por meses a foi; a resposta demonstra que lhe escapou (ou deixou que escapasse), por desfaçatez ou ignorância, os reais conceitos de genocídio e genocida.


na ausência de Estado
alenta-nos, alimenta-anos
o estado de choque

Talvez não sejam necessários comentários além do que já vai no posfácio: Mais que nos fartar, a treva nos desorienta. Estamos perdidos quanto a que rumos tomar, que resistência impor, como e quais revoltas organizar. Lamentamos que muitos dentre nós ainda defendam de bom grado seu envio ao matadouro—nunca esta bovina símile foi tão indisfarçadamente real—e aqueles que fruem dos frutos de nossos anaeróbios passamentos.

haicais dum país pandêmico ⋆ Loja Uiclap
Uma coleção temática de haicais à brasileira, que se distancia do bucolismo característico desta forma poética, para centrar-se na crise sanitária desencadeada pela pandemia do novo coronavírus.
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Lançamento: haicais dum país pandêmico
Na esteira da auto-publicação digital, estou lançando meu primeiro volume depoemas. Trata-se de uma coleção de haicais, intitulada haicais dum paíspandêmico [https://loja.uiclap.com/titulo/ua6480/][https://loja.uiclap.com/titulo/ua6480/…