esquisitinhos

tropeçar velhinhas

. 1 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
tropeçar velhinhas

Certo moço havia entre cujas
diversões mesquinhas
estava o fazer co’ artes sujas
tropeçar velhinhas.

Uma tirinha vista em criança motivara o amor a tal maldade: ao chão estatelada, uma senhora; a seu lado, dois menininhos; diz um deles, o maior: “A senhora poderia repetir o tombo? Meu amiguinho não viu…” Desde então, atentava nas ruas às senhorinhas, na esperança de que lhes faltasse o equilíbrio. Certa feita, em um ônibus luxuosamente vazio, uma pequeníssima sexagenária que acabara de passar a catraca foi ao chão com uma freada brusca do motorista; estacionou vários assentos à frente. Prontamente acudiram-na as pessoas aos lados, perguntando se estava bem, evitando mirá-la demasiado de frente, para resguardar-lhe a vergonha do tombo. Sentado ao fundo, escondeu o rosto em um panfleto para poder rir. Que tombo! Que execução! Que finalização! Dez com estrelinhas! Passara a delinear planos: pequenas projeções corporais, súbitos cruzamentos à frente, distraídos encontrões, desatentos papéis das mãos escapes. Buscava formas de fazê-las irem ao chão. Mas se o fizesse com o próprio corpo, além de arriscar-se à má opinião pública—os politicamente corretos hodiernos não entenderiam seu inofensivo gosto por acidentes envolvendo idosas—, talvez não houvesse tempo hábil para as ver caindo. Ficava atento a semelhantes proezas, a inspirações do cosmo advindas: latas d’água ligadas a invisíveis cordas, dispostas por moleques ansiosos em passagens públicas, acidentes de ciclistas e skatistas, manchetes envolvendo entregadores degolados por linhas reluzindo cerol. Aproximava-se o dia das mães; à sua, passagem comprara para que o visitasse por quinze dias. Ansioso, não dormia. Tanto ainda por aperfeiçoar, tanto por detalhar… Em sudoríficos sonhos, impacientava-se o Solo, qual deus inconstante de incógnito culto, o sangue clamando das raladuras de joelhos acima dos sessenta e cinto anos…