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Um curta sobre interpretação: Chuchotage, de Barnabás Tóth

. 2 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
Um curta sobre interpretação: Chuchotage, de Barnabás Tóth
“Nobody ever notices postmen somehow”
G. K. Chesterton, The Invisible Man

A prática da tradução escrita encontra sua contraparte oral na prática da interpretação. A terminologia, seguramente, é ruim: por um lado, ambas as práticas são formas de tradução; por outro, interpretar é uma atividade cognitivamente mais ampla, e que inclusive muitas vezes é (com maior ou menor credibilidade e confiança) usada como sinônimo do próprio ato de se traduzir. Mesmo assim, a divisão e os tipos de especialização para cada profissão são bem mais claros que a terminologia corrente.

Existem várias formas de interpretação. Inegavelmente, a que mais pesadamente parece depender de conhecimento especializado e treinamento é a interpretação simultânea: nesta modalidade, o tradutor sobrepõe sua voz à do falante em língua-fonte. Se estivermos falando em interpretação para um público ouvinte, trata-se de uma modalidade dependente de uso de tecnologia especializada em mais alto grau que as demais: cabines, microfones, fones de ouvido e canais são necessários para que o intérprete fale única e exclusivamente àqueles que necessitam de seu serviço; em se tratando de interpretação em língua de sinais para um público surdo, falante e intérprete dividem o palco. Em sua necessidade de aparato tecnológico, a interpretação simultânea guarda semelhanças com algumas das necessidades técnicas da audiodescrição para um público cego ou com baixa visão.

Mais pausada, a interpretação consecutiva ocorre se falante e intérprete tomarem turnos, alternando assim fala em língua-fonte e tradução em língua-meta. Em situações em que os participantes não apenas ouvem, mas interagem, a interpretação também pode ocorrer nas duas direções, ou seja, ser bilateral. Por sua vez, a prática da interpretação sussurrada ocorre quando o intérprete, bem próximo ao ouvinte, traduz ao pé do ouvido. Finalmente, falamos em relay quando os intérpretes para diversas línguas fazem uso de uma língua intermediária, sendo oferecida por um intérprete da língua-fonte.

Este é o universo explorado pelo diretor e roteirista húngaro Barnabás Tóth no premiadíssimo e nominadíssimo curta-metragem Susotázs (2018); o título húngaro remete ao termo técnico para a tradução sussurrada; por sua vez derivado do francês chuchotage. O filme apresenta dois tradutores simultâneos tentando chamar a atenção da única pessoa que os está escutando desde a platéia durante uma conferência.

O filme desperta interesse por uma série de questões; a mais imediatamente relevante talvez seja a invisibilidade do tradutor, talvez em nenhum outro lugar tão evidente quanto na situação de interpretação desde uma cabine.

Trailer de Susotázs (2018).