esquisitinhos

xícaras sujas

. 1 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
xícaras sujas

Casal havia cujas
  brigas não raras
  advinham de deixar as
xícaras sujas.

Matinais testemunhas das primeiras delícias das núpcias, eis à pia duas chávenas de apressado café, no apartamento recém pronto, no dia seguinte à mudança. Rumo ao trabalho, deixaram-nas aí para mais tarde. Entre os hábitos, porém, descobertos um do outro apenas nesse mais apertado convívio, repara a esposa que o companheiro—que abaixava o tampo do sanitário, não apertava o dentifrício ao meio e lavava e passava as roupas—não lavava xícaras. Nojinho, brincava ele, infantilizando o deslize. Relataram-lhe amigas que os respectivos consortes pouco ou nada faziam em casa; viam-se, porém, como bons esposos, pois “ajudavam”. Não estava, porém, a esposa para meias-gratidões: se dividiam as contas e as roupas, que também a louça. Confrontara-o amiúde sobre a pequenez do gesto, que, obviamente, crescia em importância: não mais se tratava de lavar uma xícara, mas de se recusar a ouvi-la, quando o que solicitava era tão pouco. Inconformava-se; entristecia-se; emputeceu-se, enfim. Parou também de lavar as xícaras. Empilhavam-se sobre a pia, até não haver xícara alguma. Manteve-se firme. Formigas, baratas e mofo vieram-lhe em socorro. Passara a comprar o consorte xícaras; inteira assumira a dívida (tratava-se de despesa semanal) sem jamais mencioná-la nas prestações de contas, sem lhe cobrar um centavo. Mas não as lavava. Redobrando a carga laboral, alugaram o apartamento ao lado, para armazenar as xícaras sujas. Pagavam multas insanitárias pelos problemas que ao condomínio o acúmulo trazia—nunca estiveram tão bem as contas do edifício, graças ao provento regular. Não se falavam mais. Não se tocavam. O olor de antigas imundices empestava os cômodos. Sonhava o esposo contratar um arquiteto, e construir um palácio com as xícaras assim acumuladas. Mas e se, antes de o pôr em pé desde a planta, exigisse o engenheiro que as lavasse?