Sou Ninguém! E tu, quem és? (I’m Nobody! Who are you?), Emily Dickinson
Sou Ninguém! E tu, quem és?
Também—não és—Ninguém?
Neste caso somos dois!
Nem um pio!—ou nos descobrem!
Tão chato—é ser—Alguém!
Tão notório—feito um sapo—
Publicar-se—enchendo o papo—
Prum pântano espantado!

Comentário
Curioso como um poema favorito pode ser manter em silêncio por muito tempo, até a hora certa de revelar algum sentido. Recentemente, não andava muito satisfeito com minha tradução dos dois versos finais deste poema, que me acompanha há anos; emendei-os, sinto-me mais satisfeito, e, junto às emendas, veio-me finalmente uma compreensão do que nele me atraía.
A extensa obra poética de Emily Dickinson circulou muito pouco em vida; foi descoberta pela irmã, Lavinia, que se esforçou em publicá-la; li em Borges que a encontrou num vaso, como papeluchos enroladinhos (posso estar lembrando mal, mas me agrada tanto a imagem que a deixo registrada). Sempre me pareceu curioso o destino de Dickinson: compor inconspícua uma obra considerada singular, aparentemente alheia à necessidade de lhe dar público leitor. (A título de curiosidade, não menos silenciosa me parece a personagem que dá nome à irmã: filha de Amata e Latino, prometida de Turno, causa de uma disputa armada, e, enfim, esposa de Enéias—tudo sem dizer meia palavra ou ser, de fato, meia personagem.)
O poema em questão reflete isso: alguém (que se considera Ninguém) desfazendo da publicidade, do alardear-se a si mesmo. Dois grandes mundos se chocam nas estrofes: o silenciosíssimo segredo de quem se resguarda de tudo—que, dentre outros tesouros, contém a contradição de desprezar o convívio e considerar-se Ninguém por estar fora dele, e que talvez ansiasse outro Ninguém para, juntos, serem algo um ao outro—, e o coaxar estival do sapo, que faz notar ao pântano seu desejo sexual.
Se é para ser conhecido dum pântano, de água parada e lodosa, melhor não seria ficar em silêncio? Mas cortar-se do convívio a ponto de se fazer ninguém não é menos insalubre que as águas para as quais o sapo se publica. Dois grandes mundos, duas grandes debilidades, nas antípodas uma da outra: o isolar-se a ponto de aniquilar-se; a autopromoção como fim em si.
Emily certamente não foi Ninguém, mas, em vida, algo a impediu de saber que há, sim, vida por haver em falar a outrem quando, de fato, tem-se algo a dizer...