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Quero uma presidenta (I want a president), Zoe Leonard (1992)

. 5 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
Quero uma presidenta (I want a president), Zoe Leonard (1992)

A tradução nos aproxima tanto da realidade alheia, quanto da nossa. A mediação realizada pela tradução revela não somente o conteúdo e valores do texto de partida, mas principalmente as ênfases interpretativas da público de chegada.

Dada a largada em nosso processo eleitoral com a oficialização das candidaturas, deparo-me com a postagem do poema “I want a president”, da artista plástica Zoe Leonard, cuja tradução apresento abaixo. O verbete da Wikipédia sobre o poema apresenta o momento de publicação e a motivação do poema como seguem:

Zoe Leonard é uma artista, feminista e ativista radicada em Nova Iorque. Trabalha principalmente com fotografia e escultura, geralmente desenhadas para uma instalação. Boa parte de seu trabalho foi influenciado pela ou é uma reação à epidemia de AIDS das décadas de 1980 e 1990, e tópicos relacionados.

O poema “I want a president” foi inspirado pelo anúncio de que Eileen Myles, poetisa, ativista e amiga de Leonard, entraria na disputa presidencial estadunidense de 1992 como uma “candidata abertamente mulher”. Myles disputou independentemente contra George H. W. Bush, Bill Clinton e Ross Perot. Sua identidade—uma mulher lésbica, oriunda de uma comunidade diretamente afetada tanto pela pobreza quanto pela AIDS—contrastava com a de seus ricos oponentes masculinos.

O poema, ressuscitado pelas redes sociais brasileiras quase trinta anos após sua publicação original, provavelmente nos falará mais de nossa história e de nosso futuro que da história estadunidense. É importante, porém, ter em mente que nunca houve uma presidenta nos Estados Unidos, e apenas nas últimas eleições uma mulher assumiu a candidatura em um dos dois principais partidos; também é importante lembrar que, nos Estados Unidos, as candidaturas presidenciais por partidos pequenos são consideradas risíveis, absolutas perdas de tempo, quando não entraves ao processo eleitoral. (À candidata Gill Stein, do Partido Verde, por exemplo, perguntou-se em mais de uma entrevista, insistentemente, em quem votaria se não fosse candidata, e se não achava que sua candidatura roubaria votos de Hillary Clinton, aumentando assim as chances de Donald Trump ser eleito. Curiosamente, Stein também recorreu freqüentemente à expressão o menor dos dois males—da qual Leonard faz uso no poema—para se referir ao “voto útil” em Hillary.)



Quero uma presidenta sapatão. Quero uma presidenta soropositiva, e quero uma bicha na vice-presidência, e quero alguém que não tem plano de saúde, e quero alguém que cresceu numa terra tão saturada de lixo tóxico que não tinha a opção de não contrair leucemia. Quero uma presidenta que abortou aos dezesseis, e quero uma candidata que não seja o menor dos dois males, e quero uma presidenta que perdeu seu último amor para a AIDS, que segurou nos braços alguém que amava e que sabia que estava morrendo, que ainda vê a cena diante de si cada vez que fecha os olhos à noite. Quero uma presidenta que não tem ar-condicionado, uma presidenta que pegou fila na clínica, no departamento de trânsito, no escritório da seguridade social, e que ficou desempregada e foi demitida e sexualmente assediada e agredida por ser gay e deportada. Quero alguém que passou a noite na cadeia e em cujo gramado fincaram uma cruz em chamas e que sobreviveu ao estupro. Quero alguém que se apaixonou e foi magoada, que respeita o sexo, que cometeu erros e aprendeu com eles. Quero uma presidenta negra. Quero alguém com dentes estragados e durona, alguém que comeu a comida horrível dos hospitais, alguém que se veste com roupas do outro sexo e que usou drogas e fez terapia. Quero alguém que cometeu desobediência civil. E quero saber porque isso não é possível. E quero saber porque aprendemos em algum ponto que o presidente é sempre um palhaço: sempre o cliente e nunca a prostituta. Sempre um patrão e nunca um empregado, sempre um mentiroso, sempre um ladrão e nunca pego.

«Quero uma presidenta…». Zoe Leonard. 1992.


Alguns apontamentos sobre a tradução

A tradução, tal como já apontava Roman Jakobson, contrasta as ênfases das diferentes línguas. A morfologia do inglês é pobre em flexões de gênero; salvo uns poucos pares (host/hostess, sorcerer/sorceress, widow/widower), não há marcação de gênero para os substantivos, e os dois únicos artigos da língua (the, a) não são marcados nem para gênero, nem para número. A morfologia inflexional do português obriga, por sua vez, a uma escolha, e elimina a oscilação—o que gera alguns problemas de tradução.

Primeiramente, apesar de o contexto original de produção e circulação do poema, bem como sua frase de abertura, enfatizarem que se trata de uma presidenta, não é exatamente verdade que a identidade de gênero desta figura tenha de se manter uniforme ao longo de toda a descrição; por se tratar de algo hipotético, o gênero se torna mais relevante em alguns momentos, talvez menos em outros.

As primeiras sentenças do poema evidenciam isso muito bem: o contexto original do poema me fez optar pelo feminino presidenta. Esta solução, porém, esbarra imediatamente na segunda sentença: o contexto da disseminação do HIV nos anos 1980 e 1990 dentro da comunidade LGBT talvez levasse a crer que o president da segunda sentença é homem, não mulher: afinal, os homossexuais masculinos eram mais fortemente associados à doença neste período que as lésbicas (o primeiro caso de transmissão do vírus entre lésbicas foi reportado somente vinte e dois anos depois da publicação do poema). Para evitar este estereótipo, e seguro da consciência que uma ativista como Leonard teria de que o tratamento da AIDS como uma “praga gay” seria inadmissível, o feminino foi mantido.

Aproveitando o ensejo, esclareço que a locução with aids foi vertida por soropositiva (ao invés de que tem aids) na primeira ocorrência do termo. Os tempos mudam, e também a fala. Nos anos 1990, talvez ainda houvesse certa confusão entre alguém que desenvolveu AIDS e um portador do vírus HIV; na primeira ocorrência de aids no poema, creio que a artista se referia a um(a) portador(a), e a tradução reflete isso; na segunda, trata-se de fato de alguém que desenvolveu a doença, e portanto a tradução mantém a sigla.

Um segundo problema oriundo das distintas morfologias do inglês e do português tem a ver com a escolha dos modos verbais. O inglês eliminou quase inteiramente a diferença morfológica entre o indicativo e o subjuntivo—entre afirmar algo e apenas mencioná-lo—; no português, esta diferença se mantém um tanto mais firme, ainda que o subjuntivo pareça se recolher mais e mais à escrita.

Assim, sentenças como I want someone with no health insurance e I want a president that had an abortion at sixteen seriam traduzidas por quero alguém que não tenha plano de saúde e quero alguém que tenha abortado/feito um aborto aos dezesseis. A força das imagens seria abrandada pelo subjuntivo; ademais, o uso da perífrase verbal alonga incomodamente as sentenças. Pareceu-me mais consoante ao ativismo do poema traduzir para o indicativo: não soa estranho (afinal, o subjuntivo do português está desaparecendo), e confere força às afirmações. Mesmo assim, é importante lembrar que a irrealidade mesma destes desejos é expressamente manifesta ao final do poema (And I want to know why this isn’t possible): embora isso talvez abonasse o uso do subjuntivo, o efeito geral é de contraste, e isso seria melhor garantido sem o uso recorrente do subjuntivo.

Finalmente, a expressão the tombs (apelido do Manhattan Detention Complex) foi traduzida pelo hiperônimo “cadeia”.