A Ordem das Virtudes (Ordo Virtutum), Hildegarda de Bingen
Minha tradução de aprendiz ao texto da composição da visionária abadesa alemã Hildegarda de Bingen (c.1098-1179).
Personagens
- Coro das Virtudes: Amor Celeste, Caridade, Castidade, Conhecimento acerca de Deus, Desprezo pelo Mundo, Discernimento, Disciplina, Esperança, Fé, Humildade, Inocência, Misericórdia, Modéstia, Obediência, Paciência, Temor a Deus, Vitória
- Coro dos Patriarcas & Profetas
- Coro das Almas Encarnadas
- Alma
- Diabo
Prólogo: Patriarcas & Profetas encontram as Virtudes
(1) Patriarcas & Profetas
Quem são, que nuvens semelham?
(2) Virtudes
Ó santos d’antanho,
O que em nós admirais?
O Verbo Divino
Deu-se a conhecer
Em forma humana;
Com ele, portanto,
Resplandecemos,
Formando os membros de Seu belo corpo.
(3) Patriarcas & Profetas
Raízes somos; vós, os ramos
—Frutos do Olho Semprevivo,
Cuja sombra fomos.

Cena primeira: Diálogo entre a Alma e as Virtudes
(4) Almas Encarnadas (lamentando-se)
Ai, somos peregrinas!
Que fizemos, que ao pecado enveredamos?
Do Rei, bem deveríamos ser filhas;
Caímos sob a treva do pecado.
Ó Semprevivo Sol, transporta-nos aos ombros,
À justíssima herança que, em Adão, perdemos!
Ó Rei dos reis, em teu combate, combatemos.
(5) Alma (feliz)
Ó doce Divindade;
Ó vida suavíssima,
Cujas claríssimas vestes
Então vestirei, aceitando
O que outrora perdi:
Por ti, suspiro,
E a todas as Virtudes, ora invoco.
(6) Virtudes
Ó doce criatura, concebida
Nas altas profundezas
Da Sapiência Divina,
Ó alma feliz:
Quão grande é teu amor!
(7) Alma (feliz)
De bom grado vos busco,
Pra que possais me ofertar
Vosso beijo cordial.
(8) Virtudes
A teu lado, devemos lutar,
Ó filha do Rei!
(9) Alma (queixando-se, abatida)
Ó tão dura lida,
Ó penoso fardo
Que porto, portando
Os atavios da vida,
Pois árduo é deveras
Lutar contra a carne.
(10) Virtudes (à Alma)
Ó alma, que o ser recebeste
Da Vontade Divina;
Ó feliz instrumento:
Que tanto lastimas
Contra aquilo que Deus subjugou
Da virgindade servindo-se?
Deves, conosco,
Derrotar o Diabo.
(11) Alma
Socorrei-me, ajudai-me
A manter-me em pé!
(12) Conhecimento acerca de Deus (à Alma)
Atenta ao que vestes,
Filha da Salvação;
Sê firme, e não caias jamais!
(13) Alma (infeliz)
Não posso aperfeiçoar
As vestes que visto;
Quero deveras despi-las!
(14) Virtudes
Ó consciência infeliz,
Ó miseranda,
Que te leva a ocultar
O rosto de teu Criador?
(15) Conhecimento acerca de Deus
Não O vês, nem conheces;
Ignoras Quem te deu o ser.
(16) Alma
Deus criou o mundo;
Não O ofendo; desejo
Ter d’Ele experiência!
(17) Diabo (sussurrando à Alma)
Tola! Tola! De que te serve esse esforço? Volta-te ao mundo, e te cercará com múltiplas honras!
(18) Virtudes [à Alma]
Ó voz queixosa de profunda dor!
Ai! Ai!
Eis vitória admiranda já surdiu
Num desejo admirando por Deus,
Onde um gozo carnal jazia, oculto,
Ai! Ai!
Onde a vontade ao crime não cedeu,
Onde o desejo à lascívia fugiu!
Lamenta-te, Lamenta-te, Inocência,
Que, em teu oportuno pudor,
Não perdeste inteireza,
Tampouco engoliste
Coa gula da goela
Da serpe d’antanho.
(19) Diabo
Que tanto Poder é esse, que nada pode existir senão em Deus? De minha parte, afirmo: tudo darei a quem me aceitar e seguir-me os desejos. Nada tens a ofertar aos que te seguem; sequer sabes quem és!
(20) Humildade
Minhas aliadas e eu
Bem sabemos quem és:
Dragão és, que, antigo,
Alçar-te ao mais altos
Céus desejaste,
Mas foste ao Abismo
Jogado por Deus.
(21) Virtudes
Nós, porém,
Os Céus habitamos.

Cena segunda: Apresentação das Virtudes
(22) Humildade
Eu, Humildade,
Das Virtudes, Rainha,
Digo: Vinde, ó Virtudes,
E vos hei de nutrir,
A fim de que seja
Recuperada
A dracma perdida;
A fim de que sejam
Os perseverantes
Enfim, coroados.
(23) Virtudes
Ó gloriosa rainha,
Mediadora suavíssima,
De bom grado, corremos
Ao teu encontro!
(24) Humildade
Dulcíssimas filhas,
Por isso, lugar
A vós, reservo
No toro real!
(25) Caridade
Eu, Caridade,
Amável flor,
Digo: Virtudes
Vinde até mim,
E vos guiarei,
À branca luz
Do ramo em botão.
(26) Virtudes
Ó flor deleitosa,
Ardente é o desejo
Que a ti nos apressa.
(27) Temor a Deus
Eu, Temor a Deus,
Ó filhas felizes,
Providencio
Pra que ao Deus Vivo
Contempleis,
E não pereçais.
(28) Virtudes
Ó Temor a Deus,
Quão útil nos és;
Cuidamos, deveras
De ti jamais nos afastarmos.
(29) Diabo
Viva! Viva! A quem temeis tanto? A quem tanto amais? Onde está o lutador, onde o recompensador? Não sabeis quem adorais!
(30) Virtudes
Em verdade, temes
O súpero juiz,
Pois que, à Geena,
Assoberbado,
Foste atirado.
(31) Obediência
Eu, Obediência
Resplandecente,
Digo: Virtudes,
Belíssimas filhas,
Vinde até mim,
E à casa vos hei
De reconduzir,
E ao beijo do Rei.
(32) Virtudes
Ó dulcíssima
Voz que nos chamas:
Com grande zelo,
Bem nos cabe ir a ti.
(33) Fé
Sou Fé, o Espelho da Vida;
Venerandas filhas, vinde a mim;
Mostrar-vos-hei a Fonte borbotante.
(34) Virtudes
Ó serena e semelhante
A preclaro espelho:
Confiamos chegar,
Por intermédio teu,
À verdadeira Fonte.
(35) Esperança
Sou a que ao Olho Semprevivo
Contempla, docemente;
Aquela a quem
Falaz torpor não faz
Se equivocar;
Aquela a quem,
Tampouco, podes,
Ó treva, anuviar.
(36) Virtudes
Ó vívida vida,
Suave consolo;
Mortífera, a morte
Vences, e os Céus
Descerras com teus
Olhos videntes.
(37) Castidade
Ó Virgindade,
Deitas-te ao toro real;
Quão docemente
Ardes no abraço do Rei;
Contigo, o Sol fulgura, por isso,
Tua nobre flor jamais decai.
Ó nobre virgem,
Sombra jamais sobrevém
A flor que, em ti,
Decídua seja.
(38) Virtudes
Derruba o vento a flor campestre;
A chuva a leva. Ó Virgindade, permaneces
Na sinfonia dos íncolas celestes,
E ali és flor suave que jamais fenece.
(39) Inocência
Ovelhinhas, fugi,
À imundície do Diabo!
(40) Virtudes
Dela, com tua ajuda, fugiremos!
(41) Desprezo pelo Mundo
Eu, Desprezo pelo Mundo
Sou da vida a alvura;
Ó peregrinação, eu te renego,
Tão árdua sobre a terra miseranda!
Ó Virtudes, vinde a mim,
E, juntas, ascendamos
À Fonte da vida!
(42) Virtudes
Gloriosa senhora,
Sempre sustentas
De Cristo o combate;
Ó magna virtude,
Que esmagas o mundo,
Vitoriosa, deveras,
Habitas os Céus.
(43) Amor Celeste
Sou a porta dourada
Nos Céus assentada;
Quem cruza essa porta
Não prova na mente
Da amarga impudicícia.
(44) Virtudes
Ó filha do Rei,
Presente no abraço
Que o mundo recusa,
Quão suave é teu amor no Deus Supremo!
(45) Disciplina
Sou amante dos simples costumes
Que ato vil desconhecem;
Sempre contemplo o Rei dos reis,
Abraço-O na mais alta honra.
(46) Virtudes
Ó sócia angelina,
Quão bela te adornas
Para as núpcias reais!
(47) Modéstia
Às imundícies todas do Diabo
Calco, frustro e fujo.
(48) Virtudes
Floresces entre os brancos lírios,
Nas construções da celestial Jerusalém.
(49) Misericórdia
Muito amarga a dureza
Que nas mentes humanas
Não se mostra disposta
Ao auxílio nas dores!
Desejo, porém, estender
A mão aos que sofrem.
(50) Virtudes
Louvável mãe dos peregrinos,
Sempre os pões de pé, e sempre
Unges aos frágeis e aos pobres.
(51) Vitória
Vitória sou,
Forte e veloz lutadora;
Duma pedra munida,
Calco a serpe antiga.
(52) Virtudes
Ó mui doce guerreira,
Na fonte escaldante
Onde o lobo rapace afundou
—Ó gloriosa, ó coroada—,
De bom grado, a teu lado,
Frente fazemos
Ao enganador.
(53) Discernimento
Eu, Discernimento, sou a luz;
Benesses, igualmente, distribuo
Do Deus equânime, das quais
Adão se alienou por lascívia.
(54) Virtudes
Quão doce és,
Ó bela mãe,
E quão suave;
Em ti, ninguém
Se vê desbarato.
(55) Paciência
Coluna sou
Que não se pode
Estremecer;
Meu fundamento
Está em deus.
(56) Virtudes
Na caverna de pedra
Quão firme te manténs,
Ó gloriosa guerreira
Que tudo suportas!
(57) Humildade
Filhas de Israel:
Deus vos erigiu
Ao pé da Árvore;
Por isso, agora, recordais
O seu plantio.
Filhas de Sião,
Alegrai-vos!

Cena terceira: A Alma clama às Virtudes
(58) Virtudes
Ai! Ai!
Nós, as Virtudes,
Lamentamos, choramos,
Pois a ovelhinha do Senhor
Foge à vida!
(59) Alma (penitente, lamentando-se e invocando as Virtudes)
Ó reais Virtudes,
Quão belas e brilhantes, junto ao Sol Supremo,
Quão doce a vossa morada;
Ai de mim! Fugi de vós.
(60) Virtudes
Vem a nós, ó fugitiva,
E Deus te acolherá!
(61) Alma
Ai! Ai!
Em férvidos açúcares me afundo,
Afundo-me em pecados, e por isso,
Vossa morada não ouso adentrar.
(62) Virtudes
Não temas, nem fujas,
Pois o Bom Pastor,
Em ti, reconhece
A ovelha desgarrada.
(63) Alma
Hei mister de vossa acolhida;
Da serpe antiga maculada,
Exalam-me as feridas
Mui torpes odores.
(64) Virtudes
Corre a nosso encontro;
Junto a nós, segue as pegadas,
Por meio das quais
Jamais cairás.
(65) Alma (penitente, às Virtudes)
Sou a pecadora que fugiu à vida.
Ulcerada, irei a vós,
Para que, de vós, receba
Da Redenção, o escudo protetor.
Ó vós, hostes da rainha;
Alvos lírios da rainha,
Purpúreas rosas:
Peregrina, de vós
Exilei-me; ajudai-me,
Inclinai-vos a mim,
A fim de que possa,
No sangue do Filho,
Erguer-me outra vez.
(66) Virtudes
Alma desgarrada,
Sê forte e veste
As armas da luz!
(67) Alma
Ó Humildade,
Verdadeiro remédio,
Concede-me auxílio,
Pois, em múltiplos vícios,
Fracionou-me a soberba,
Impingindo-me inúmeras
Cicatrizes;
Acolhe-me, pois corro
A teu encontro.
(68) Humildade
Acolhei, ó Virtudes
Est’alma ferida,
Que chora e lamenta,
Em nome das Chagas
De Cristo, e trazei-ma.
(69) Virtudes [à Alma]
Conduzir-te, queremos;
Desertar-te, jamais!
As hostes celestes
Alegram-se em ti
—Cantamos, portanto,
Em suave harmonia.
(70) Humildade
Desejo abraçar-te,
Ó filha infeliz;
O Magno Remédio
Por ti, padeceu
Dura e amarga paixão.
(71) Virtudes
Ó Fonte Vivente,
Quão magna e suave!
Sobre Ti, não recusas
Debrucem-se as almas humanas;
Previdente, soubeste
Afastá-las da queda dos anjos
Que em posse pensavam
Estar do que a si
Era interdito.
[À Humildade]
Alegra-te, ó filha de Sião,
Pois muitos daqueles
Que a serpe anelou alienar-te,
Por Deus recobrados, retomas,
Fulgindo, brilhantes
Bem mais do que antes
Que a queda ocorrera.

Cena quarta: Vitória sobre o Diabo
(72) Diabo
Quem és? Donde vens? Tens-me em teu abraço; trouxe-te cá pra fora. Voltas-me, agora, as costas, e me deixas perplexo. Porém, afirmo: por meus esforços, rebaixar-te-ei ao rés do chão!
(73) Alma (penitente)
Maus somente, admito,
Caminhos trilhei.
Agora, em verdade,
Contra ti me levanto,
Ó enganador!
Humildade, rainha:
Com teu remédio, ajuda-me!
(74) Humildade (a Vitória)
Ó Vitória, o Diabo
Venceste nos céus;
Com tuas hostes, acode!
Prendei-o!
(75) Vitória (às Virtudes)
Ó fortíssimas hostes,
Gloriosíssimas, vinde e ajudai-me
A vencer o mentiroso.
(76) Virtudes
Ó mui doce guerreira,
Na fonte escaldante
Onde o lobo rapace afundou
—Ó gloriosa, ó coroada—,
De bom grado, a teu lado,
Frente fazemos
Ao enganador.
(77) Humildade
Prendei-o, ó preclaras Virtudes!
(78) Virtudes
Ó rainha nossa, obedecemos-te,
E quanto nos ordenes, cumpriremos!
(79) Vitória
Alegrai-vos, companheiras:
Está presa a serpe antiga!
(80) Virtudes
Louvado sejas, Cristo, rei dos anjos!
(81) Castidade
Ó Satanás:
Na mente do Altíssimo,
Calco-te a cabeça;
Na forma virgínia,
Um suave milagre engendrei,
Quando o Filho de Deus veio ao mundo.
Vês-te, por isso, caído,
Teus espólios e tu.
Alegram-se, agora, os celícolas,
Pois tua gula se vê derrotada.
(82) Diabo
Não sabes o que engendras, pois teu oco ventre não acolhe as belas formas advindas dum homem. Nisso, descumpres o preceito de Deus acerca do prazeroso conluio; assim sendo, sequer sabes quem és!
(83) Castidade
Como pode me tocar o que emporcalhas
Com sugestões de luxúria?
Um único homem trouxe ao mundo;
Contra ti, congregou,
Por seu nascimento,
O gênero humano.
Processional
No princípio, as criaturas verdeciam,
Flores, em meio às criaturas, floresciam.
E vendo que o Verdor se degradara,
Disse o Guerreiro: Ciente estou,
Mas o Número Áureo
Inda não se aperfeiçoou.
Ó Paterno Espelho,
Contempla: em meu corpo,
Fadiga suporto,
Pois meus pequeninos
Estão exauridos.
A Plenitude criada
Não deveria—não te esqueças—fenecer.
Naquele tempo, resolveras
Teus olhos jamais cederiam
Enquanto não visses meu corpo
Cravejado em jóias.
Esgota-me, agora,
Andar sob o peso do escárnio.
Ó Pai, contempla: minhas chagas Te estendo!
Quanto a vós, ó homens,
Dobrais os joelhos
Diante do Pai
E as mãos estendei!
Notas
Sobre a tradução: Trata-se dum estudo de tradução em verso do latim ao português; para refinar escolhas e aclarar pontos difíceis, foram consultadas pontualmente as traduções de Peter Dronke e Débora Duarte Costa. Apesar da aparência, a obra não foi concebida como dramática—em sentido moderno ou medieval—; a tradução aproximou-a das convenções redacionais teatrais, regularizando como direções de palco algumas indicações constantes na identificação das personagens, e acrescentando outras, entre colchetes. A numeração das falas, os subtítulos das cenas e a relação inicial de personagens também são acréscimos facilitadores da leitura. Interpretações tradutórias relevantes seguem abaixo:
16-18. Embora o Diabo famosamente grite, não lhe sendo atribuída melodia, neste passo, tomo strepitus por “sussurro”, não “grito”, devido ao fato de que, contrariamente ao que ocorre mais adiante, as Virtudes não lhe dão resposta. O Diabo tenta a Alma a salvo dos ouvidos das Virtudes; estas, sem escutá-lo, respondem à voz queixosa de profunda dor da Alma (16).
18: Sintaticamente, avariciam é forma acusativa, sendo objeto direto de (non) devorasti: Inocência (não) devorou a gula; não obstante, segui uma interpretação ablativa: Inocência (não) devorou com a gula, i.e. com a mesma avidez da serpente.
61: A rigor, açúcares é anacronismo, pois tanto o condimento quanto seu nome latino (saccharus) são alguns séculos posteriores ao texto; faz, contudo, sentido poético não alheio à fala.
71: A primeira parte da fala interpreta vivens fons (Fonte Vivente) como menção a Deus, a semelhança de outros passos em que vivens é usado para adjetivar a Divindade (3, 4, 27, 35); apenas na segunda parte, as Virtudes dariam resposta à sua rainha.
Processional: Dentre as Virtudes, Fé se declara speculum vite (Espelho da Vida), chamando-lhe as demais speculata (preclaro espelho) (33-34); no hino de encerramento, o vocativo Paternum Speculum (Espelho do Pai) mostra o Guerreiro dirigindo-se a ouvinte singular; parece-me plausível supor que se dirige à Fé.