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Dia da tradução ou do tradutor? O que celebramos no 30 de setembro?

. 2 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
Dia da tradução ou do tradutor? O que celebramos no 30 de setembro?

Ao postar, hoje, uma mensagem celebrando o Dia Internacional da Tradução, um amigo me escreveu dizendo: “Ok, não é o dia do tradutor, mas vale o reconhecimento”.

Respondi que, inicialmente, havia preferido Dia Internacional da Tradução porque, em português, dia do tradutor apresenta o problema de usar o masculino como gênero neutro.

A mensagem, porém, fez-me pensar em explicações que havia lido sobre como os nazistas cooptaram o termo socialista: a simbologia nazista sobre o trabalho inclui a idéia do Dia do Trabalho, oposta à centralidade verdadeira da classe trabalhadora proposta pelo socialismo e pelo comunismo.

Assim, embora pareçam a mesma coisa, o Dia do Trabalho e o Dia do Trabalhador não são exatamente equivalentes: um enfatiza o ato, a instituição (sub-repticiamente, talvez, a afinco desmesurado, a obediência, o não-questionamento), ao passo que o outro celebra os seres humanos, agentes do processo, e que devem ser seus beneficiários. Em línguas como o português, porém, vem crescendo o desconforto em relação ao uso do masculino como gênero neutro, e ainda não há solução para isso.

O mesmo impasse se vê em relação ao dia da tradução/tradutor: a celebração abstrata do ato tradutório (um ato trabalhista, levado a termo muitas vezes por freelancers à margem de direitos e garantias) ou a mais concreta de pessoas (do sexo masculino, principalmente).

A grande diferença entre celebrar o trabalho (ou a subserviência que vem no bojo de uma ética trabalhista que escamoteia a exploração) e celebrar a tradução é que esta é, mais que um trabalho, uma atividade humana fundamental a todas e todos que vivem em situação bilíngüe. Embora tradutoras e tradutores profissionais sejam importantes—muitas vezes precisamos deles mesmo quando conhecemos já uma língua estrangeira—, também é uma atividade levada a termo por pessoas comuns em seu dia-a-dia. Uma criança extremamente pequena já pode atuar como intérprete dos pais imigrantes, o adolescente amante de músicas ou séries comparará as legendas e traduções ao que já sabe sobre a língua para conversar com os amigos a respeito de seus gostos.

Assim, celebrar a tradução, de modo abstrato, pode ser celebrar algo mais humano que o trabalho (como o concebemos hoje, i.e. uma obrigação formal ou informal que gera renda para o trabalhador e lucro para o patrão e para os bancos); é celebrar o desejo humano por comunicação, a necessidade humana por intermediação e mesmo por justiça. A discussão onomástica que estou trazendo é, de certo modo, prova disso: buscar o termo mais justo, mais inclusivo, mais amoroso também é parte do labor tradutório profissionalizado.

Celebrar a instituição ou as pessoas depende não apenas do termo que empregamos para nomear a celebração; depende igualmente dos que empregaremos para justificar nossas escolhas.

Assim, meus votos de um excelente dia da mediação, do diálogo, da compreensão mútua, da empatia, da busca por precisão e exatidão, da transmissão e aprimoramento do conhecimento, do contato pacífico entre povos e culturas, da defesa de comunidades vivendo em países estrangeiros; feliz dia de todas e todos que, de forma amorosa e empática, fazem tudo isso acontecer.