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Uma boa notícia e uma inquietude teórica: um artigo de Miranda France

. 5 minutos de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
Uma boa notícia e uma inquietude teórica: um artigo de Miranda France

A edição de abril de 2019 da revista Prospect traz uma excelente notícia para tradutoras e tradutores: no Reino Unido, a literatura traduzida para o inglês vem apresentando vendas superiores às da ficção anglófona. Quem nos traz a notícia é a escritora e tradutora Miranda France, em seu artigo Between words: In praise of literary translators:

Os grandes esforços para tornar mais atrativa a ficção traduzida vêm finalmente rendendo frutos. Em 2015, o Prêmio Independent de Ficção Estrangeira—reestabelecido após um hitato pelo editor literário veterano Boyd Tonkin—foi unido ao Prêmio Internacional Man Booker, com um prêmio de £50.000, dividido igualmente entre autor e tradutor; o Prêmio Literário Internacional de Dublin oferece £100.000, sendo £75.000 para o autor e £25.000 para o tradutor; outros prêmios novos incluem o Prêmio TA para Primeira Tradução, concedido por Daniel Hahn, que premia editores juntamente com tradutores, e o Prêmio Peirene Stevns de Tradução, que oferece £3.500, publicação no Reino Unido e uma residência de tradução nos Pirineus para um tradutor iniciante.

Estas iniciativas—juntamente com uma nova geração de editores independentes, um grupo ativo de blogs online e a hashtag #TranslationThursday—testemunharam um boom nas vendas de romances traduzidos. […] Um estudo encomendado pela Man Booker em 2016 apontou que, no Reino Unido, as vendas de ficção traduzida cresceram 96% desde o início do milênio e que, em média, “ficção traduzida vende melhor que aquela escrita originalmente em inglês, especialmente no campo da ficção literária”.

Essa notícia vem acompanhada do depoimento da autora sobre os percalços da tradução literária. Demonstrando profundo conhecimento prático e social de seu métier, France nos oferece um riquíssimo panorama da tradução, abrangendo desde questões puramente técnicas até a famosa “invisibilidade do tradutor”. Mostra-nos, por exemplo, que, embora muitas vezes invisíveis, tradutoras e tradutores estamos longe de sermos isolados:

Escrever é um ato famosamente solitário; tem-se o melhor da tradução, por sua vez, quando há contato e colaboração. Quando escrevo um livro, tendo a guardar segredo, mas quando traduzo faço contato com qualquer um que possa ser útil. Meu encanador me forneceu diagramas enquanto eu trabalhava em um conto sobre uma jóia perdida em um sifão em s. Um amigo arquiteto me explicou como se deitam as fundações de uma torre de apartamentos, para um romance no qual um cadáver é enterrado em cimento fresco. Vários advogados me ajudaram a destrinchar o funcionamento de diferentes sistemas de justiça. O clube do livro da embaixada argentina vem me ajudando com o lunfardo, uma língua derivada da Lombardia, e desenvolvida nas prisões de Buenos Aires—tão típica desta cidade quanto o cockney em Londres. Em alguns casos, traduzir se parece a uma investigação detetivesca; em outros, é como resolver um quebra-cabeças.

Tradutora do espanhol e ligada à ficção argentina, não é impossível que France se haja inspirado no famoso depoimento de Jorge Luis Borges em seu Las versiones homéricas para dar o seu sobre a duração das traduções:

O que torna uma tradução vitalmente diferente do original é sua impermanência. Para leitores do inglês, Bleak House será sempre o mesmo, mas Madame Bovary pode continuar mudando. […] Cada geração pode ter um novo Don Quixote. Essa fluidez permite uma revigoração marcante, mas também alarma os leitores que desejam ler “o texto definitivo”. É difícil aceitar que a tradução não pode ser perfeita, e que não é estática. Sempre haverá erros. Há dois mil anos, ao traduzir a Bíblia, São Jerônimo traduziu keren como cresceu chifres ao invés de emanou luz, e sua escolha resultou em inúmeras pinturas e estátuas de Moisés com chifres.

Borges não seria, porém, o único convidado invisível da autora. Seu depoimento sobre os ossos do ofício tange inúmeros pontos já abordados, não somente por outros tradutores, mas principalmente pelos estudiosos mais abundantemente citados do campo dos Estudos da Tradução; de certa forma, mostra a importância de se construir pontes entre teoria e prática de tradução. Já mencionei o fato de que France tange o problema da invisibilidade do tradutor; a autora o faz à sua maneira, como uma anedota de festa, e não há menção nem do termo invisibilidade nem do teórico que famosamente a mencionou, Lawrence Venuti. Pontuo alguns outros exemplos:

  • A questão da obrigatoriedade dos desvios sintáticos para se manter a “fluidez”, por ela mencionada, foi uma das primeiras a serem abordadas pelos lingüistas comparativos, em sua tentativa taxonômica de classificar o grau e a obrigatoriedade das divergências entre texto-fonte e texto-meta; a idéia de que se pode traduzir “literalmente” com respeito à sintaxe somente atormentaria um tradutor que não se debruçou criticamente sobre esse tipo de teoria, uma vez que só o que a teoria consegue provar é que não temos como nivelar semelhantes desvios: somente línguas cultural e sintaticamente muito próximas permitiriam que se falasse nestes desvios, e ainda assim em nível bastante elementar.
    Seguramente, a preocupação de France é estilística, não sintática: os pronomes nulos do espanhol permitem um encadeamento de verbos, e, conseqüentemente, um alongamento de períodos, que a obrigatoriedade do pronome pleno no inglês torna impossível reproduzir (o exemplo é da autora). Para os lingüistas comparativos, este seria um desvio necessário; para os que desconfiam de sua teoria, não há desvio algum. (Já escrevi sobre a impossibilidade do conceito de tradução palavra-por-palavra, que seria o modo ideal a partir do qual estes desvios são medidos, em outra ocasião.)
  • Por usa vez, as peculiaridades causadas pelo estilo dos autores—extensão dos parágrafos, práticas de topicalização e inversão sintática, preferências por repetição lexical ou sinonímia, uso de pontuação, etc.—, que tendem a ser “amaciadas” pelos tradutores, estão relacionadas não só ao mal-fadado esforço da lingüística comparativa, mas principalmente à crítica de Antoine Berman às “deformações” tradutórias: defensor de uma enigmática letra do original, Berman pontua contra a tentação da fluidez excessiva, que destrói as redes significativas do original. Concorde-se ou não com ele, seu estudo oferece uma excelente teoria do romance desde o ponto de vista da diversidade lingüísitica, que pode ser útil para ampliar a sensibilidade tradutória.
  • A certa altura, France nos faz imaginar adolescentes argentinos falando como seus equivalentes ingleses. Ao tratar das deformações, Berman também se debruçou sobre a problemática das gírias, pontuando que somente as normas cultas são mutuamente tradutíveis entre si, e portanto expondo a ferida cultural por trás da tradução de expressões ligadas a uma língua ou a um grupo social. Os adolescentes argentinos de France devem soar como adolescentes para um público inglês, mas seria um falseamento que soassem como adolescentes ingleses; a autora parece, portanto, conceber o problema de modo semelhante ao de Berman.

A alguém ligado ao Estudos da Tradução, oferece-se quase inevitavelmente a pergunta: por que não citar estes autores? Por que ignorar a teoria que já codificou estes problemas todos? Por que, ao escrever, reinventar a roda—às vezes, inclusive, demonstrando espanto em relação a problemas que bem poderíamos considerar superados—?

Estas perguntas não são, porém, necessárias, e podem ser invertidas: por que exigir de uma autora competente e muitíssimo bem-informada que cite uma cartilha de nomes pré-estabelecidos sempre que mencionar problema x ou y? Por que os problemas não podem ser sugeridos por uma extensa prática tradutória e por amplo conhecimento do que vem sendo feito por tradutores e editores, devendo sempre ser referendados a esforços teóricos de autores circunscritos à academia, e cuja prática tradutória será, necessariamente, bastante divergente da de tradutores freelancers? (Uma pergunta adicional poderia ser feita: por que repreender uma autora por reinventar a roda já inventada pelos teóricos, se os próprios teóricos parecem adorar fazer o mesmo?)

Não tenho resposta a estas questões, nem de um lado, nem de outro. Apenas me parece curioso que teoria e prática de tradução concorram lado a lado, apontando os mesmos problemas, descrevendo semelhantes situações, celebrando igualmente o labor literário de tradutoras e tradutores, e ainda assim se mantenham, muitas vezes, incomunicáveis.