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É possível traduzir palavra por palavra?

. 8 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
É possível traduzir palavra por palavra?

A tradução palavra-por-palavra é o mais antigo ideal tradutório. Desde Cícero—primeiro pensador ocidental a se debruçar sobre a tradução—passando por Jerônimo, Dryden, Goethe e por todos os que pensaram a tradução antes do advento da Lingüística e da formação dos Estudos da Tradução, a contraposição entre tipologias tradutórias sempre se estabeleceu entre traduções literais, de um lado, e livres do outro. As traduções ditas literais sempre se aproximam, em maior ou menor grau, do ideal de uma tradução palavra-por-palavra.

Em texto anterior, abordamos o conceito de palavra, mostrando que, como se trata de uma unidade lingüisticamente controversa, a cobrança por palavra gera uma visão distorcida do que seja traduzir. Hoje, a discussão orçamentária se dará por uma outra via: vamos nos manter atrelados ao senso comum sobre palavra, aceitando nossa intuição sobre o que sejam palavras, e nos debruçar um pouco sobre o conceito de tradução palavra-por-palavra para tentar descobrir se é realmente possível traduzir dessa forma.

A estudiosa Heloísa Gonçalves Barbosa publicou em 1990 (2.ed. 2004) um volume chamado Procedimentos técnicos de tradução: uma nova proposta; este volume estuda os procedimentos tradutórios elencados pela estilística comparada, e procura sintetizá-los em uma lista mais prática; Barbosa analisa as tipologias propostas por Vinay & Darbelnet (1958/1977), Newmark (1981, 1988), Vázquez-Ayora (1977) e Catford (1965), para chegar a uma lista de 13 itens. As tipologias elencadas por estes tradutólogos visam compreender de que modos uma tradução se afasta da sintaxe, da morfologia e da semântica dos textos originais; esses “desvios” tradutórios são descritos, categorizados e, classificados conforme o grau de distanciamento que assumem da forma e do conteúdo do texto original; são exercícios tradutórios que raramente escapam ao nível da sentença, ou seja: são procedimentos de tradução de períodos, não parágrafos ou capítulos.

Todos as tipologias analisadas e sintetizadas por Barbosa listam um procedimento de tradução literal ou palavra-por-palavra: Vinay & Darbelnet e Vásquez-Ayora falam em tradução literal (traduction littérale/traducción literal); Newmark fala em traduçãoum-a-um (one-to-one translation) e Catford em tradução palavra-por-palavra (word-for-word translation). Para chegar à sua síntese, Barbosa aproxima estes procedimentos, vendo-os como suficientemente equivalentes; ao oferecer sua própria tipologia, contudo, separa as duas categorias, descrevendo-as como segue:

tradução palavra-por-palavra: “tradução em que determinado segmento textual (palavra, frase, oração) é expresso na língua-alvo mantendo-se as mesmas categorias numa mesma ordem sintática, utilizando vocábulos cujo semanticismo seja (aproximadamente) idêntico ao dos vocábulos correspondentes no texto em língua-alvo.” (Aubert: 1987 p. 15 apud Barbosa: 1990/2004 p.64.)

tradução literal: “aquela em que se mantém uma fidelidade semântica estrita, adequando porém a morfo-sintaxe às normas gramaticais da língua-alvo.” (Aubert: 1987 p. 15 apud Barbosa: 1990/2004 p.65.)

Como se vê, a diferença entre os dois tipos está na morfologia e na sintaxe. Adicionalmente, Barbosa considera que a tradução palavra-por-palavra tem uso raro e restrito, devido à baixa convergência estrutural entre as línguas. Podemos inferir disso que Barbosa considera como palavra-por-palavra apenas uma tradução que gere uma unidade textual sintática e semanticamente aceitáveis—o que excluiria, por exemplo, traduções interlineares.

Barbosa considera que a tradução palavra-por-palavra é rara; usando os próprios exemplos elencados pelos autores que estudou para sintetizar sua tipologia, gostaria de mostrar que é impossível. Os exemplos de tradução palavra-por-palavra oferecidos por Barbosa (coligidos, por sua vez, dos autores que estudou) são os seguintes:

Os exemplos permitem elencar as características fundamentais da tradução palavra-por-palavra, quais sejam:

  1. cada palavra no texto-meta é traduzida por uma única palavra no texto-fonte;
  2. conseqüentemente, o número de palavras no texto-meta e no texto-fonte é o mesmo;
  3. cada palavra no texto-meta pertence à mesma classe gramatical da palavra no texto-fonte à qual traduz: artigo traduz artigo, verbo traduz verbo, etc.;
  4. a ordem das palavras mantém-se a mesma;
  5. finalmente—e levando-se em conta que a morfologia também foi destacada como relevante, não apenas a sintaxe—, mesmo as sub-unidades morfológicas foram traduzidas por sub-unidades equivalentes nas línguas-meta.

É fácil perceber que esse tipo de tradução ocorreria somente entre línguas muito próximas histórica ou culturalmente: no exemplo (3), todas as línguas têm sua origem no latim, três dos artigos definidos têm exatamente a mesma forma, e os adjetivos para branco têm todos um étimo comum. Menos fácil é perceber que o paralelismo tradutório é ilusório: nem mesmo estes textos simplíssimos foram traduzidos palavra-por-palavra. Analisemos os exemplos:

1. Morfologia verbal

Comecemos por (2). O verbo escrev-eu traduz wrote. Diferentemente dos demais casos, aqui o verbo da língua-fonte não traz separação morfológica: o verbo irregular write, em sua forma pretérita, não recebe a marcação por sufixo dental (/t/ ou /d/) dos verbos regulares; historicamente, surgiu de um padrão de marcação morfológica chamado ablaut: o verbo é flexionado através de uma mudança na vogal da raiz. Os melhores exemplos do ablaut ainda presentes no inglês são verbos como sing/sang/sung, drink/drank/drunk e swim/swam/swum.

O ablaut, durante algum tempo, foi o modo produtivo da língua inglesa. O que quer dizer isso? Basicamente, que, em inglês antigo, quando um verbo novo surgia, essa era sua forma de ser conjugado. O ablaut, porém, perdeu força ao longo da história da língua inglesa, e o modo produtivo passou a ser, justamente, o dos verbos que recebem um sufixo dental: delete > deleted. Os verbos hoje considerados irregulares no inglês são, na verdade, formas residuais do ablaut—algumas das quais, inclusive, recebem sufixo dental: catch/caught, buy/bought.

Mas o que tem isso a ver com a sincronia do inglês? Não poderíamos simplesmente dizer que a vogal –o– é o morfema que traduz o sufixo –eu? Historicamente (diacronicamente), talvez sim, mas o caso pode não ser bem esse para verbos irregulares. Não é exatamente claro que a forma wrote seja conjugada; aqui, podemos ter um caso de suplementação: o falante aprende as formas individualmente, uma vez que não podem ser derivadas de uma raiz. Verbos altamente irregulares como ser e ir, em português, são aprendidos dessa forma.

As coincidências entre write, wrote, e written (mais ortográficas que fonológicas) não são suficientes para gerar um paradigma de flexão. Assim, wrote é uma forma inteira, que não poderia, sincronicamente, ser subdividida em raiz + afixo. Moral da história: o combo raiz + sufixo de escreveu traduz uma única forma suplementar (wrote) do inglês. No nível morfológico ao menos, a tradução não poderia mais ser considerada palavra-por-palavra, e sim, de acordo com a tipologia e as definições de Barbosa, literal.

2. Artigos: normas de uso

No pensamento tradutório herdado da estilística comparada, a tradução palavra-por-palavra se coloca como um modelo ideal (mesmo que altamente utópico) a partir do qual medir desvios tradutórios mais ou menos obrigatórios; ocorre que, às vezes, é a própria tradução palavra-por-palavra que poderia ser considerada um desvio. Os exemplos (1) e (2) são traduções palavra-por-palavra apenas porque certas escolhas tradutórias foram feitas, ao invés de outras.

Em (2), fica fácil perceber que para o equivale a ao. Essa simples mudança bastaria para que a tradução deixasse de ser palavra-por-palavra e passasse a literal. Assim, mesmo aqui, temos mais de uma escolha possível, e soa um tanto arbitrário dizer que para o teria precedência sobre ao simplesmente para acomodar a primazia de um método raríssimo de tradução.

Mais interessante, porém, é o caso de (1): Paul é “traduzido” por Paulo (ver nota abaixo). Acontece que há diferenças importantes entre os usos de artigos (em especial, do artigo definido) em inglês e português: em inglês, não se usa artigo definido antes de nomes próprios e conceitos abstratos; em português, em alguns contextos, sim. Assim, a sentença poderia ser traduzida igualmente por O Paulo chutou a bola; em determinados contextos, essa tradução seria inclusive preferencial—o que equivale a dizer que, nesses contextos ao menos, a tradução palavra-por-palavra seria mais canhestra e menos aceitável.

3. Artigos: morfologia

O fato mais contundente, porém, à teoria da tradução palavra-por-palavra vem do exemplo (3); nos outros casos, simplesmente convertemos traduções palavra-por-palavra em traduções literais. Os exemplos migraram (ou poderiam migrar) de categoria, mas as categorias foram mantidas. Não obstante, há detalhes sobre a morfologia dos artigos que estes exemplos deixam de lado; ao fazê-lo, demonstram ignorância sobre a natureza textual da tradução, e geram a falsa impressão de que é possível—mesmo que muito raramente—traduzir uma palavra por outra em nível de sentença.

Barbosa inclui a tradução palavra-por-palavra e a literal no grupo das traduções que apresentam convergência do sistema lingüístico, do estilo e da realidade extralingüística. Seu segundo grupo de procedimentos será o das traduções que apresentam divergência do sistema lingüístico; seu primeiro exemplo, para este segundo grupo, é justamente o da tradução do artigo definido the para o português: onde o inglês apresenta uma única forma, o português apresenta quatro (o, a, os, as), marcadas para gênero e número. Esse pequeno detalhe afeta as traduções acima de um modo importante. Em (3), as formas a e la apresentam marcação de gênero e número (+feminino, + singular), ao passo que the não é marcado para nenhuma dessas categorias. Mas, e se o exemplo fosse ligeiramente diferente?

Sangue é masculino em português, italiano e francês, mas feminino em espanhol; em inglês, nem uma coisa nem outra, já que o inglês raramente atribui gênero a substantivos comuns (e, mesmo quando o faz, nem sempre há marcação morfológica); ademais, blood é, em inglês, “incontável” (i.e. determina uma substância ou idéia que não é passível de divisão sem o uso de unidades de medida: one boy > two boys; *one blood > *two bloods), e os incontáveis não levam artigo.

Assim, não é imediatamente claro que o artigo masculino singular o seja diretamente traduzido pelo feminino singular la, pelos masculinos singulares il e le e pelo nulo (ø). Como determinante dentro de um sintagma, a forma do artigo é definida não só por seus traços semânticos específicos, mas por concordância com o núcleo do sintagma; ora, se esse é o procedimento para compor a sentença em língua-fonte, também o será para as sentenças em línguas-meta. A tradução do artigo é realizada levando-se obrigatoriamente em conta tanto artigo quanto substantivo, excedendo os limites de como seria, pura e simplesmente, traduzir uma palavra por outra.

Esse simples exemplo nos mostra que, mesmo em uma tradução que tenha a aparência de ser traduzida palavra a palavra, é o conjunto que é traduzido; formas como artigos são selecionadas de acordo com itens lexicais semanticamente mais centrais, e portanto são traduzidas de acordo com a tradução desses mesmos itens. Seria, no mínimo, incompleto dizer que o é traduzido por la/il/le/ø; a tradução do artigo depende da do substantivo.

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Apesar de este texto, novamente, não se aprofundar em questões orçamentárias, esta incursão mostra que a palavra, também desde um ponto de vista exclusivamente tradutório, não é a nossa unidade basilar. Traduzimos textos, não palavras; mesmo quando traduzimos apenas palavras, a tradução pode ser dependente do contexto (quem nunca pediu pelo contexto quando lhe solicitaram que traduzisse uma palavra?). Assim, a tradução palavra-por-palavra—de cujo status altamente elevado como “tradução perfeita ou ideal” no senso comum provavelmente deriva a cobrança por palavras—pode não ser apenas rara; talvez seja, de fato, inexistente.


Nota: tradução de nomes próprios

Como já disse algumas vezes (por exemplo, em um texto sobre tradução de topônimos), nomes próprios não são tradutíveis; no exemplo, como Paul não é uma pessoa de verdade, e a sentença não tem referente no mundo real, o nome pôde ser aclimatado.