Escondida em minha flor (I Hide Myself within My Flower), Emily Dickinson

Minha tradução de uma quadra de Emily Dickinson, e breve comentário à tradução de Jorge de Sena, por cujo intermédio a conheci.

Escondida em minha flor (I Hide Myself within My Flower), Emily Dickinson
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I hide myself within my flower

I hide myself within my flower,
That fading from your Vase,
You, unsuspecting, feel for me—
Almost a loneliness.

(In: Johnson, Thomas J. (ed.). The Complete Poems of Emily Dickinson. Delhi/Ludhiana: Kalyani, 1960, p. 427.)


Escondida em minha flor

Escondida em minha flor,
Vou sumindo de teu Vaso,
Pra que sintas, sem que o saibas,
De mim, solidão—ou quase.


Li esta quadra por primeira vez numa tradução de Jorge de Sena:

Escondo-me na minha flor,
Para que, murchando em teu Vaso,
Tu, insciente, me procures—
Quase uma solidão.

Os octossílabos brancos de Sena são menos decorosos que os de Dickinson: fading é mais suave que murchando; me procures, mais intenso do que feel for me. A quase solidão final, apositiva na tradução, seria, em verdade, objeto direto de feel, e a mudança sintática é importante; talvez motivada pelo travessão—marca hermética que atormenta os editores e tradutores de Dickinson, mas justificada, aqui, pela sintaxe preferida por Sena—, a quebra sintática transfere a solidão do amado para o eu-lírico: vem do ato de se esconder na flor e, com a flor, murchar (tal, ao menos, minha impressão ao ler a tradução, antes de conhecer o original).

Como resultado final, vemos o eu-lírico mais solitário, mais ardente e mais passivo, deliberadamente definhando como forma enérgica de angariar atenção a seu desejo reprimido (a flor: o sexo sublimado em beleza, a criatividade que nasce do desejo, como de solo alheio). O autorrecolhimento é esperançoso, mas a esperança é quase falsa, e a importância que almeja ter, nula. O recatado inglês de Dickinson, plácido no autoaniquilamento tanto quanto na reação dele esperada, não parece ousar a tanto, morrendo no mesmo silêncio em que vivera. A tradução é mais crua no processo autodestrutivo que faz murcharem em vaso alheio os tímidos, os retraídos, os isolados.

(Diga-se de passagem: a quase-solidão que encerra o poema compõe um verso tão bem-acabado e com tradução tão imediata em português, que mal se poderia pensar em outra, muito menos desejar que fosse igualmente satisfatória; é fácil imaginar que qualquer tradução desta quadra se inicie pelo verso final, e à sua manutenção vote seus esforços. Não mantive a opção de Sena, não por teimosia, mas por não desejar desperdiçar a slant rhyme dos versos pares.)

Às vezes, a tradução nos ensina o que o outro diz ao dizer diferente. Não desejei emendar o poeta português; minha compreensão da quadra é moldada comparativamente, e lhe é tributária; ocorre que Dickinson, em tradução, floresceu-me em vaso alheio, e desejei, como noutras ocasiões, colhê-la também eu. Pra que sua solidão não seja um quase, e encontre companhia nas solidões todas que nos ajuda a compreender.

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