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Politicamente polido

. 10 minuto ler . Written by Fabiano Sei
Politicamente polido

The School of Life é um centro de ensino radicado em Londres, que também conta com seu canal no YouTube; seus vídeos abordam temas relativos a psicologia, filosofia e política. Um de seus últimos vídeos, intutulado Is there an alternative to political correctness?, contrapõe os conceitos de correção política (o chamado politicamente correto) e polidez, destacando algumas vantagens que esta teria sobre aquela.

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The School of Life is a global organisation helping people to lead more fulfilled lives. It is a resource for helping us understand ourselves, for improving our relationships, our careers and our social lives - as well as for helping us find calm and get more out of our leisure hours.

Confesso que, inicialmente, a idéia me pareceu interessante; algumas de suas particularidades, porém, fizeram-me repensá-la, e o que segue é uma tentativa de contrapor os argumentos levantados no vídeo.

A definição inicial de correção política, apresentada nos minutos iniciais do vídeo, parece bastante favorável:

O politicamente correto envolve uma profunda sensibilidade ao sofrimento de minorias tradicionalmente deixadas de lado pelas forças sociais dominantes. Seu objetivo é espalhar empatia, justiça e imparcialidade.

Não obstante sua sensibilidade, o politicamente correto apresentaria problemas, especialmente em sua forma de execução; estes problemas talvez possam ser resumidos em dois conceitos: privilégios inerentes e culpa não-redentora: uma vez que nossos privilégios não são escolha nossa (e que inclusive nos tornam cegos para percebê-los), e que não está em nosso poder abdicarmos da opressão da qual (involuntariamente) participamos, aceitar as exigências do politicamente correto implica viver em culpa.

A descrição me parece saudável: os privilégios são diferentemente distribuídos conforme gênero, classe, raça e sua intersecção nas diferentes vidas de grupos e indivíduos; privilégios positivos—ou seja, coisas boas que, de fato, acontecem a indivíduos em razão de seu privilégio—tendem a ser mais escassos; uma boa parte dos privilegiados não consegue enxergar seus privilégios, pois estes são negativos—ou seja, coisas ruins que lhes deixam de acontecer.

Mesmo privilégios positivos podem ser invisíveis, uma vez que tendem a ser relativos: sabemos (ou, ao menos, já ouvimos falar) que homens ganham mais que mulheres, e pessoas brancas mais que pessoas negras, mas não costumamos sair por aí comparando nossos contracheques. Mesmo que o fizéssemos, comparações ao acaso com pessoas de nosso círculo de convívio não oferecem o tipo de dado estatístico necessário para que se possa, de fato, compreender que pessoas brancas, em média, ganham mais que pessoas negras. Para falar a linguagem da lógica das falácias: uma propriedade coletiva (i.e. verdadeira para um grupo) não necessariamente é distributiva (i.e. verdadeira para todo e qualquer membro do grupo).

Assim sendo, torna-se extremamente difícil aceitar o peso da correção política, quando, mesmo tentando, mal conseguimos enxergar nossa parcela de responsabilidade inerente. (Diga-se de passagem, é curioso como muitos cristãos, que aceitam tranquilamente o conceito de culpa hereditária, parecem não compreender o de responsabilidade inerente.) As falhas inerentes ao conceito de correção política e à sua transformação em ativismo, no que diz respeito aos direitos e garantias fundamentais de grupos considerados “minoritários”, têm, sim, o potencial de alienar pessoas talvez dispostas a compreendê-lo, se não lhes soasse pesado. A descrição apresentada pelo vídeo e aqui complementada talvez possa servir como alerta aos ativistas: a bagagem mental e emocional daqueles a quem desejamos convencer não pode ser ignorada, se realmente desejamos ser eficientes em nossas estratégias de convencimento.

(Se quiser ler mais acerca da problematização do ativismo identitário, pode acessar os linques abaixo.)

A esquerda identitária e a satanização da maioria
Como a política identitária dividiu a esquerda: uma entrevista com Asad Haider
Novo livro do historiador Asad Haider debate a mutável relação entre identidade pessoal e ação política.

A solução oferecida é substituir o peso do politicamente correto pela leveza da polidez. A polidez é descrita como “uma filosofia de preocupação e interação social”, que partilha de algum dos objetivos da correção política: “também a polidez deseja um mundo de sensibilidade, gentileza e graça; também a polidez deseja evitar causar sofrimento a estranhos.” São as diferenças, contudo, que tornariam a polidez uma substituta adequada à correção política. O vídeo lista cinco, quais sejam:

  1. A polidez é universal, não-seletiva.
  2. A polidez é focada na ação, não no pensamento.
  3. A polidez é apolítica.
  4. A polidez é ensinada gentilmente.
  5. A polidez é uma aspiração, não uma exigência legal.

A partir daqui, a argumentação torna-se, no meu entendimento, mais problemática; coletivamente, os problemas se originam na confusão de se oferecer uma solução pessoal, individual a um problema coletivo, social, sócio-histórico. Inspecionemos agora cada uma destas diferenças.

A polidez é universal, não-seletiva

O politicamente correto focaria sua atenção em determinados grupos, ao passo que a polidez é universalmente aplicada a todos os indivíduos.

Dito desta maneira, parecerá lindo e eficiente, mas esta mesmíssima diferença pode ser comparada a outra, entre duas hashtags atualmente muito em voga: #BlackLivesMatter e #AllLivesMatter. O movimento por trás do “vidas negras têm valor” (normalmente, traduz-se por “vidas negras importam”, o que me parece um decalque dispensável da expressão inglesa original) justamente mostra que, uma vez que todas as vidas têm valor, é necessário prestar atenção especial àquelas que se encontram correntemente mais vulneráveis.

A argumentação do vídeo parece esquecer que dedicar atenção especial a quem necessita não implica recusá-la a outrem, ou lhes oferecer uma versão inferior, insuficiente. Os pais de duas crianças—uma de cinco anos e outra de três meses—muito provavelmente darão atenção diferenciada a cada uma, e certamente dedicam mais tempo ao caçula; por si, isso não quer dizer que a atenção ao mais velho seja insuficiente. A correção política também é universal, não no tratamento aos indivíduos, mas em seu respeito aos direitos fundamentais de todos os seres humanos—sem se esquecer, contudo, das diferenças entre grupos, que restringem o acesso de alguns a estes direitos.

A polidez é focada na ação, não no pensamento

O vídeo nos ensina que a polidez, sendo um princípio de ação, deixa nossos pensamentos em paz; contanto que nossas ações sejam guiadas por princípios de bondade e gentileza, tanto faz o que pensemos.

Há, aqui, um problema crucial: nossos pensamentos interagem com os estímulos do meio para gerar nossas percepções. Como é possível saber que estamos sendo suficientemente polidos com todos se nossa visão de mundo, por exemplo, desconsidera que alguns são mais vulneráveis que outros? Que algumas vulnerabilidades não são puramente individuais, mas ao menos parcialmente coletivas? É justamente uma transformação basilar em nosso sistema de crenças que garante que nossas ações estarão de acordo com a bondade e a gentileza atribuídas pelo vídeo à polidez. Reformar nossas ações sem molestar nossos pensamentos é possível apenas de modo superficial e incompleto.

Posso oferecer um exemplo: uma pessoa polida, nestes termos, tratará a pessoas brancas e negras de modo igual (segundo, ao menos, sua concepção implícita do que seja igualdade); esta pessoa elogiará igualmente cabelos, loiros, ruivos, castanhos e coloridos; cabelos lisos, ondulados, cacheados e crespos. Se não compreender, porém, determinadas tendências de comportamento social—por exemplo, se julgar que preconceito racial limita-se a “ódio aos negros” ou a achá-los “feios”—, poderá se ver inconscientemente tentada a tocar os cabelos crespos de pessoas negras a quem elogiar, sem seu consentimento; ao ser informada de que isso é uma forma de racismo, poderá sentir-se magoada com a “injustiça”, uma vez que sua concepção de polidez como ação externa não a obriga a rever seus conceitos. Como se vê, só podemos ser tão polidos quanto nossas concepções acerca do outro nos permitem.

A polidez é apolítica

Esta me parece a mais preocupante das alegações. Trata-se de nada menos que negar o caráter político de nossas interações cotidianas, rechaçar a filiação a ideais de esquerda—o vídeo é explícito em identificar a correção política à esquerda, e a partir daí justificar parte de seu rechaço—, imaginar que é possível nos comportarmos em sociedade de modo completamente alheio a nossas aspirações políticas.

Nos Estados Unidos, desde o início da administração Trump, vêm se tornando freqüentes os ataques a pessoas negras e latinas por parte de mulheres brancas, conhecidas coletivamente como Karens. Essas mulheres são, muitas vezes, filmadas gritando com pessoas que encontraram nas ruas, pelos motivos mais variados. Um caso interessante foi o da mulher a quem apelidaram Permit Patty (algo como “Pati Alvará”); esta mulher foi filmada perguntando a uma menina negra de oito anos, que vendia água na frente de seu condomínio, se tinha autorização da prefeitura. Obviamente, não estou sugerindo que apenas mulheres se portam desta maneira, mas o fato de que tantas mulheres o venham fazendo chamou alguma atenção; vítimas de um sistema de governo que as oprime, e incapazes de compreenderem corretamente as razões sociais de sua corrente frustração, aceitam o discurso oficial racista e xenofóbico, voltando-se violentamente contra minorias.

Parece-me, no mínimo, ingênuo supor que pessoas cujas atitudes denotam um alto nível de descontrole emocional conseguiriam tranqüilamente se levantar e oferecerem seus assentos a uma senhora negra no ônibus, porque a polidez é “universal” e “apolítica”. Ao contrário do que sugere o vídeo, não imagino que essas pessoas se sintam dilaceradas entre abraçarem o politicamente correto ou se tornarem cada vez mais insensíveis: provavelmente, julgam ser boas e corretas; não é impossível que se descrevam como “polidas”, mas seus pensamentos (que o vídeo diz devem ser deixados em paz) não lhes sugerem que determinados grupos de pessoas sejam dignos de trato polido.

A polidez é ensinada gentilmente

Segundo nos ensina o vídeo, a polidez aceita as limitações alheias, e portanto é ensinada de modo mais brando. Não tenho certeza de que esta informação tenha embasamento—não vejo nenhuma razão pela qual uma pessoa que se julga polida não possa, talvez por lapso, agir de modo arrogante e presunçoso—, mas posso lhe dar o benefício da dúvida.

Talvez seja realmente uma área a se pensar: as estratégias que empregamos para ensinar e propagar a importância da correção política são eficientes? Se considerarmos que o privilégio inerente e a culpa não-redentora são realidades com as quais temos de contender, nossas estratégias darão conta de contorná-los?

Como o exemplo das Karens nos permite entrever, nem todas as pessoas retribuirão com gentileza nossa gentileza ao tentar ensiná-las. Talvez nem todas as pessoas sejam ensináveis, e a maioria de nós não saberia como dialogar eficientemente com um fascista. Tanto a polidez quanto a correção política, em sua relação com as ações individuais e cotidianas, são ineficientes nestes casos; é a adoção de políticas públicas que pode nos auxiliar a lidar com os irascíveis e irracionais.

A quinta e última diferença parece retornar a uma despolitização do problema de dois modos. O primeiro está na diferença entre aspiração e exigência legal. (Podemos, aqui, talvez, ver um certo contra-argumento antecipado ao problema, acima apontado, de se deixar os pensamentos em paz: uma aspiração não é algo que necessariamente devemos alcançar de forma plena, perfeita e completa; é antes um ideal, do qual buscamos nos aproximar, ainda que de modo imperfeito. A pessoa polida certamente não o será o tempo todo.) Em segundo lugar, a certa altura, a relação entre correção política e polidez é comparada à diferença entre caridade e taxação: “aquela nos parece nobre e gentil; esta, uma opressão da qual adoraríamos nos livrar”.

As duas comparações redundam naquilo que é precisamente a vantagem do politicamente correto sobre o apoliticamente polido: como se vê, o politicamente correto é associado à lei e à taxação, ou seja, às supracitadas políticas públicas, ao passo que a polidez permanece no nível da ação individual e espontânea—daí estar associada a uma aspiração pessoal e à caridade.

Não é verdade, como sugere o vídeo, que o politicamente correto esteja atualmente atrelado à lei; é verdade, sim, que é seu objetivo transformar-se em lei, ou seja, assegurar sob a forma legal direitos inalienáveis e plenamente alcançáveis a todos aqueles que deles necessitam. Tampoco é verdade que a taxação seja mal em si: é justamente dos recursos públicos coletados através de impostos que vêm as melhorias necessárias à infraestrutura das cidades, aos sistemas públicos de transporte, saúde e educação—especialmente quando os impostos são coletados e distribuídos de maneira justa, o que, muitas vezes, infelizmente, está longe de ser verdade, mas que não invalida a taxação em si como um bem social.

Assim como gestos individuais de polidez, por mais sinceros que sejam, não conseguem redimir ou corrigir os problemas sócio-históricos que levam determinados grupos a posições de extrema carência e vulnerabilidade, a caridade, sendo volitiva e esporádica, também não consegue dar conta deles, embora esteja associada a sentimentos de auto-satisfação.

Neste quinto e último item, vemos o cerne da argumentação: a caridade é superior porque faz o caridoso se sentir bem; o politicamente correto é problemático porque faz o privilegiado se sentir mal. Toda a argumentação é desenvolvida desde o ponto de vista das fragilidades e da sensibilidade de pessoas em situação de privilégio; pessoas que, ao negarem o caráter político desses problemas, conseguem também negar sua culpa inerente e intransferível como detentores de privilégios históricos.


Coletivamente, as ressalvas acima apontam que o vídeo promove uma confusão entre as esferas de ação individual e coletiva. Esta confusão é oriunda do fato de que o mal-estar gerado pelo privilégio inerente (ou seja, sua culpa não-redentora) é um fenômeno social, sócio-histórico, que afeta nossas ações e sentimentos individuais. Uma vez que o caráter político da polidez é explicitamente negado, ela é oferecida como uma solução que devolve o problema à esfera do individual, do individualmente solucionável. Este retorno, porém, redunda numa versão atenuada daquilo que o politicamente correto, de fato, busca, mas eficiente em eliminar as consequências negativas de se sentir privilegiado.

Existem, sim, formas de ação que podem abrandar os efeitos de nossa culpa não-redentora: primeiramente, abandonar o conceito de culpa, e assumir o de responsabilidade: não faz sentido sentir-me culpado por um contexto histórico ao qual não gerei, mas faz todo o sentido assumir a responsabilidade social de sua transformação. Essa transformação será mais eficientemente alcançada por meio de políticas públicas, mas isso não impede que minhas ações individuais sejam transformadas por uma compreensão mais correta e refinada de privilégios, e do modo como se manifestam no cotidiano. Ações simples—oferecer o assento em coletivos, tratar respeitosamente pessoas que nos prestam serviços, respeitar a legislação inclusiva, defender políticas de ação afirmativa, escutar o que especialistas e as próprias minorias têm a dizer sobre si mesmas, aceitar quando nos apontam que nosso comportamento é falto—podem ser igualmente polidas e politicamente corretas.

Finalmente, é necessário compreender que o desejo de não ser importunado em nada—e portanto de só aceitar o politicamente correto na medida em que não causa qualquer inconveniente, por menor que seja— é um sintoma de privilégio. Os grupos lutando para ter acesso a direitos fundamentais não têm vidas fáceis, nem livres de desconforto; não existe nenhuma razão pela qual quem se considera privilegiado de algum modo deva estar livre de desconforto quando se junta a eles. Não estamos a salvo de cometer erros, de nos sentimos envergonhados e mesmo culpados; o que nos redime é a certeza de que fazemos o possível para assumir a responsabilidade, e transformar o meio social que reduz direitos a privilégios.