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aversão a versões: traduzir para línguas estrangeiras é possível, viável e eficaz

. 4 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
aversão a versões: traduzir para línguas estrangeiras é possível, viável e eficaz

Em jargão tradutório, versão é o nome dado para tradução desde a língua materna para uma língua estrangeira; também existe a tradução entre línguas estrangeiras, mas, que seja de meu conhecimento, não há termo técnico específico para isso.

Em tradução, a versão é uma prática comum. Além disso, convenhamos, é muito mais fácil contatar um tradutor no seu próprio país—com quem negociar em sua própria língua e a quem pagar na sua própria moeda—, do que buscar um tradutor estrangeiro, especialmente se você, de fato, não domina a língua em questão.

A prática, porém, é malvista; sobre o tradutor pesa estigma semelhante ao dos professores “não-nativos” de línguas estrangeiras. Assim como muitas pessoas ainda têm a falsa crença de que aprender uma língua estrangeira é necessariamente melhor e mais eficiente com professores nativos ou nos países onde é falada, muitas ainda sustêm a igualmente falsa crença de que apenas o tradutor nativo pode traduzir para seu idioma. No caso do ensino de línguas estrangeiras, o mito do “professor nativo” já foi desmascarado, embora muitos ainda pensem dessa forma; creio, porém, que ainda é necessário fazer o mesmo pelo mito do “tradutor nativo”.

Por que, afinal de contas, um falante não-nativo não pode traduzir para idioma estrangeiro? Penso que a principal razão para o veto é o conhecimento lingüístico: o falante nativo conheceria melhor seu idioma que o não-nativo, e estaria menos sujeito a erros. Esta idéia, porém, é falsa por diversos motivos. Listo-os principais abaixo:

(1) A competência lingüística é setorizada

Nenhum indivíduo domina o todo de sua língua: ninguém sabe todas as palavras de seu idioma, tampouco sua sintaxe engloba todas as estruturas lingüísticas disponíveis para aquela língua. Cada falante conhece um núcleo geral, composto por palavras, expressões e estruturas mais generalizadas, e alguns núcleos específicos, relativos à sua experiência e especialidades.

Falantes com mais alto nível de instrução em dadas áreas—não digo “instrução formal” para que a informal também seja valorizada—serão mais proficientes e desenvoltos nestas áreas. Assim, um médico não-nativo é mais proficiente no jargão médico do idioma estrangeiro que falantes nativos leigos desse mesmo idioma. Em qual dos dois você confiaria para interpretar um artigo das áreas médicas, uma bula ou uma receita escritas nessa língua?

(2) Não-nativos podem ser mais proficientes que nativos em algumas áreas

Em conseqüência do item anterior, nem todos os falantes nativos são capazes de escrever um texto complexo em suas línguas maternas.

No caso específico do inglês, por exemplo, a grande maioria dos falantes nativos pena para compreender o largo léxico anglófono de base latina—geralmente mais rebuscado e empregado em situações técnicas, acadêmicas e formais—, ao passo que mesmo estudantes de inglês instrumental brasileiros compreendem estas mesmas palavras sem qualquer problema, já que são semelhantes a palavras comuns em sua língua. Termos como pulmonary, cardiac, sentiment e indignation são imediatamente reconhecíveis para nós (nenhuma delas é um falso cognato), mas de uso mais restrito em inglês, desconhecidas de boa parte dos falantes.

O tradutor não-nativo competente necessita de um domínio de texto autoral semelhante ao do nativo: um tradutor não somente traduz para línguas estrangeiras, mas também escreve textos originais nestas línguas. Um especialista em inglês com formação universitária será, sim, capaz de escrever textos mais complexos que um falante nativo com formação de nível médio, por exemplo.

Destas ressalvas decorre que um falante nativo não é necessariamente mais proficiente que um não-nativo em todas as circunstâncias.

(3) Tradutores são interventores terminológicos

A conseqüência mais imediata e importante do fenômeno da tradução é que os tradutores intervêm no jargão técnico das línguas estrangeiras. Como a versão é prática difundida—gostem ou não os puristas—, esta intervenção é realizada tanto por falantes nativos quanto não-nativos.

As línguas estrangeiras—em especial, quando usadas em situações de comunicação internacional—podem ser utilizadas para descrever realidades das mais diversas; isso quer dizer que falantes não-nativos de um idioma podem empregá-lo para falar de suas vidas e de assuntos de seu interesse. Comunidades de não-nativos têm direito a fazer usos específicos das línguas estrangeiras, e, portanto, farão usos próprios de léxico e sintaxe.

Em vista disso, seria mesmo arrogante pensar que o nativo teria sempre precedência sobre o não-nativo na escolha dos modos de se falar de uma dada realidade. Conseqüentemente, alguns usos lingüísticos de não-nativos são abonados pela autenticidade e relevância comunicativa de suas situações de uso, e tendem a ser respeitados por nativos que escrevam sobre essa área.

Tradutores não-nativos—como produtores lingüísticos especializados e competentes—têm direito de decidir sobre questões terminológicas em determinados casos. Os tradutores inevitavelmente interferem no jargão internacional de línguas não-nativas, e portanto colaboram com os especialistas na construção da base terminológica de suas áreas. Aquele termo que você faz questão que seja traduzido por um nativo pode haver sido cunhado e difundido por um não-nativo.

Como reiterei ao longo do texto, a versão é uma prática comum. Assim, meu último argumento será um exemplo; em nome da objetividade científica, seguramente não é um exemplo do meu próprio trabalho. Convido-os a lerem “Flick”, conto do escritor francês Raymond Roussel (1877-1933), vertido do francês para o inglês pela tradutora Fedra Rodríguez Hinojosa; Fedra é brasileira, filha de imigrantes espanhóis; sua tradução foi submetida à publicação virtual The Brooklyn Rail.

O escritor Raymond Roussel