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O Porta dos Fundos e inteligibilidade mútua

. 2 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
O Porta dos Fundos e inteligibilidade mútua

Esta semana, escrevi uma chamada para um curta-metragem sobre intérpretes simultâneos; no mesmo dia em que era publicada, o Porta dos Fundos lançou Tradutor, seu mais novo vídeo, lidando com interpretação consecutiva (você pode assisti-lo abaixo antes de prosseguir):

O vídeo interessa menos pela problemática da tradução que pela do conceito de língua. Tão recorrente quanto o traduttore traditore ao se falar em tradução, é o dito Uma língua é um dialeto com um exército para se falar em línguas: a divisão da fala humana em diferentes línguas parece não mais que um consenso político, não raro obtido à força. Com o tempo, o consenso pode gerar distinções entre falares próximos que os justifiquem como línguas distintas, embora o contrário nem sempre seja verdade, ou seja, o reconhecimento de que dois falares são variantes uma única língua não é, por si, suficiente para mantê-los formalmente próximos.

Embora seja escancaradamente evidente que sueco não é inglês, seria ainda mais claro que inglês antigo (ou anglo-saxão) não é inglês (contemporâneo). Mesmo assim, inglês antigo é tão inglês quanto inglês médio ou moderno, com base na conexão histórica que leva um estado da língua a se transformar em outro. O mesmo não é verdade em se tratando do português e do latim, contudo, embora a mesma conexão exista.

Pode-se justificar a diferença de tratamento dizendo-se que o inglês contemporâneo é filho único do anglo-saxão, ao passo que o português é somente uma das muitas línguas neolatinas. Mas a arbitrariedade persiste, dada a obvia diferença entre algo como Fæder ure þu þe eart on heofonum e Our Father, who art in heaven; nada menos que um especialista seria capaz de reconhecer hlaf como a forma ancestral de loaf, que então significava bread (pão). Chaucer, Mallory e Shakespeare serão passáveis como inglês; o Pai nosso tal como o Rei Alfredo o rezara, bem menos.

O que falta entre os diferentes momentos do inglês, ou entre o português e o latim, é o que se chama de inteligibilidade mútua: a capacidade que têm falantes de línguas distintas de se compreenderem uns aos outros, independentemente de haverem ou não estudado as línguas uns dos outros. O português do Brasil e o espanhol latino-americano são mutuamente inteligíveis em grau satisfatório; o português do Brasil e o de Portugal, como demonstra o vídeo, nem tanto. Se uma mesma língua pode ser ininteligível para dois falantes, ao passo que línguas distintas podem ser perfeitamente inteligíveis, como determinar quando temos uma língua, quando duas?

A ferocidade do problema pode ser amansada se lembrarmos que a inteligibilidade não é estrutural, mas pragmática. Ao falar de inteligência artificial, citei um trecho de um poema de Angélica Freitas; não o vou repetir, mas vou reproduzir uma das epígrafes de seu livro Um útero é do tamanho de um punho:

i piri qui

Honestamente, pensei se tratar de alguma língua indígena ou pouco conhecida ao abrir o volume pela primeira vez; a leitura do poema que dá nome ao livro rendeu claríssima essa enigmática forma, como pertencente ao mais corriqueiro português.

Assim, menos temos em comum com os distantes portugueses que com os vizinhos argentinos; menos vemos de sua televisão e ouvimos de sua música. Nossa língua, aqui e lá, muda de modos distintos, que os volumes portugueses aqui publicados nem sempre registram. Quem lê Saramago e Lobo Antunes ou o moçambicano Mia Couto pensará que a discussão sobre ser o português uma língua ou duas um exagero, pois as línguas-padrão tendem a um conservadorismo que apaga as diferenças, e serve sempre de ponte, remendando inteligibilidades avariadas.