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Tradução e crítica

. 6 minutos de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
Tradução e crítica

A discussão sobre a tradutibilidade da poesia é bastante antiga. Pessoalmente, não me agrada. Mesmo assim, o texto abaixo oferece um arrazoado desse desagrado—em linhas gerais, creio que existe uma confusão entre o exercício da crítica literária e o da tradução literária (ver nota abaixo) que seria necessário aclarar.

O tradutor e teórico Mário Laranjeira, em sua Poética da tradução, baseia-se em Riffaterre para mostrar a diferença entre sentido e significância; para Laranjeira, o objetivo da tradução poética é alcançar a significância. Em linhas gerais: enquanto o sentido tem a ver com o conteúdo proposicional de uma expressão (que pode ser parafraseado em outra), a significância tem a ver como os modos de produção de sentido (que podem ser descritos criticamente via análise). Para Laranjeira, o tradutor de poesia não estaria preocupado em desvendar o sentido, mas em gerar um texto cujos recursos lingüísticos fossem iguais ou suficientemente semelhantes aos do poema original.

A formulação que Laranjeira dá ao problema é apenas uma das muitas possíveis para nossa visão contemporânea de poesia como uma espécie de estrutura estética aberta a processos de significação menos definidos e definitivos que os da fala quotidiana. Um poema diz, ao mesmo tempo, menos e mais que outros textos: diz menos porque seus sentidos literais são considerados, no mais das vezes, irrelevantes; diz mais porque, ao descartarmos o sentido literal explícito de metáforas, metonímias, sinédoques, etc., passamos a buscar outros tipos, mais ou menos alegóricos, de sentido, que mudam conforme o tempo e o lugar.

Assim, o notório poema de William Carlos Williams sobre plumbs devoradas por alguém que deixa o bilhete—analisado na já clássica Oficina de tradução de Rosemary Arrojo—não é sobre o bilhete, nem sobre comer frutas; não sabemos bem sobre o que seja, mas é sobre “outra coisa” (respeito? relações de propriedade? desejo sexual? problemas conjugais?). Jonathan Culler mostra como o conteúdo pode ser desvalorizado em prol de estratégias de produção de sentido ao converter uma frase do filósofo W. V. O. Quine em poema:

A curious thing
about the ontological problem is its
simplicity

Um dado curioso
a respeito do problema ontológico é sua
simplicidade

De certa forma, Culler “abre” o espectro das possíveis interpretações ao enfatizar, através das “intimidadoras margens de silêncio” geradas pela quebra dos versos, as palavras em sua relação umas com as outras. O “poema” de Quine/Culler deixa de ser sobre o problema ontológico em si; agora, é sobre “outra coisa”.

Assim encarado, o poema torna-se por demais econômico para que se o possa traduzir adequadamente. A economia de um texto (literário, em particular) diz respeito ao conjunto de inter-relações que abrem seus significados, potencializando o caráter semântico de todos os níveis de estruturação lingüística: fonética, fonologia, morfologia, sintaxe, semântica e pragmática. Assim, uma aliteração ou as rimas (recursos fonéticos) enfatizam determinadas palavras, ou as unem de maneira não-linear; a sintaxe (extensão das sentenças, inversão de constituintes, predominância da parataxe ou da hipotaxe, etc.) também podem assumir caráter imitativo dos pensamentos expressos; os campos semânticos de itens lexicais esparsos, as repetições de palavras, o uso de sinonímia rica ou de terminologia mais consistente também se tornam poeticamente ativados. Assim, ao contrário do que acontece com textos tomados como não-literários, todos os componentes estruturantes passam a imitar ou enfatizar significado de alguma forma. Tornam-se para-signos: elementos não-significantes que, quando associados a um signo, adquirem certo potencial representativo.

O corolário dessa descrição é que, como, a rigor, tudo no texto é igualmente importante, não sabemos onde está o seu cerne: não há hierarquia. A poesia, vista como objeto estético não-hierárquico, cujos modos de significar são mais importantes que o significado em si (uma vez que este nunca pode ser exatamente delimitado), torna-se, senão intradutível, de dificílima tradução. A tradução dependerá sempre da análise e da interpretação do tradutor acerca dessa estruturação, e seu trabalho poderá, quando muito, buscar equivalentes para uma parte desses elementos constituintes, muitas vezes à custa de alguns traços de significado.

Crítica não é tradução

Descrever a poesia desta forma pode parecer pertinente, mas não conta a estória toda. Há um detalhe crucial esquecido por esta descrição: a poesia é assim descrita desde um ponto de vista crítico, mas traduzir não é, exatamente, um ato de crítica textual.

Do tradutor de poesia, uma visão crítica parece exigir não somente que se porte como um crítico, mas que traduza como um. Ao exacerbar todas as peculiaridades do texto e se mostrar, no mínimo, temerária a aceitar que haja um cerne—ou seja, que o poema possa conter zonas mais importantes e necessárias, e zonas mais periféricas e contingentes—, a visão crítica pende à intradutibilidade. Nada poderia ser deixado de lado—nem mesmo o sentido, cuja centralidade visões como a de Laranjeira põem em questão.

Embora não se possa dizer que esta visão esteja incorreta (parece-me, sim, a visão corrente não só sobre poesia, mas sobre objetos estéticos de um modo geral), é uma visão crítica, cuja função é viabilizar o trabalho do crítico. O crítico não precisa hierarquizar ou selecionar interpretações; pode muito bem descrever o poema a partir de mais de um ponto de vista: o Satã de John Milton pode ser o herói e o vilão do Paraíso perdido, Capitu pode ou não haver traído Bentinho; Romeu e Julieta podem ser o mais apaixonado casal de todos os tempos e, ao mesmo tempo, um par de adolescentes apressados.

O crítico também reclama para si o direito de eleger os centros gravitacionais de um texto, sem que isso signifique que sua escolha é objetivamente a melhor ou a única, mesmo quando comumente aceita. Dom Casmurro não é costumeiramente descrito desde a relação entre Bentinho e Escobar, embora já haja sido aventada a possibilidade de que fosse uma relação homossexual: o momento em que Bentinho oferece veneno ao filho pareceria mais importante que a apalpadela que dá no braço do amigo, mas, em última instância, é o olhar crítico quem decide isso.

Do mesmo modo, Romeu e Julieta é descrito desde a relação entre os dois adolescentes, e nunca desde os problemas que os governantes têm para manter a ordem social, mas me parece perfeitamente plausível que o príncipe de Verona e seu papel na manutenção da paz em meio à rixa entre duas famílias abastadas pudesse ser o cerne de uma peça crítica—provavelmente, já há mais de um artigo crítico a respeito, uma vez que Shakespeare é um daqueles escritores sobre os quais já se disse tudo e ainda há mais tudo por dizer.

A tarefa do tradutor não consiste puramente em analisar um texto, mas em produzir outro, que mantém uma relação intertextual de primeira ordem com produção prévia de outro autor. Tanto a resenha quanto a tradução são o que André Lefevere chamou de reescritas ou refrações: textos sobre um texto pré-existente, que lhe conferem uma sobrevida, e interferem no modo como é incorporado a comunidades interpretativas, adaptando-o a ideologias e estruturas de poder ou fazendo com que as confronte. Apesar disso, a resenha crítica e a tradução não devem ser consideradas equivalentes; são formas distintas de reescrita. O resenhista produz um texto ao qual assina; é seu, não pertence ao autor original, e suas opiniões não podem ser imediatamente atribuídas ao autor original. O tradutor, por sua vez, não assina a peça que produz; seu texto é e não é o texto escrito por outra pessoa, e quem responde pelas intenções comunicativas e opiniões do texto é o autor do texto-fonte. Traduzir é escrever “o mesmo texto” que outra pessoa, mas em outra língua.

A conseqüência imediata dessa diferença escorregadia é que, embora o tradutor necessite, sim, de senso crítico e de uma capacidade satisfatória de análise crítica, sua análise será voltada para a produção de uma obra semelhante à obra-fonte: pertencerá ao mesmo gênero, deverá ter as mesmas opiniões, terá extensão comparável. Para o tradutor, como para o escritor, existe, sim, uma hierarquia textual de prioridades. A interpretação do tradutor gerará cernes textuais, responsáveis por guiá-lo na tarefa de decidir o que manter, o que descartar, o que considerar fundamental e o que dispensável.

Enquanto o crítico vê o texto como peça acabada, imóvel, o tradutor vê o texto como algo a ser montado e remontado. O crítico, cuja função é aparentada à do filólogo, tem por desejo (duramente utópico) preservar o texto; o tradutor tem por tarefa reconstruí-lo. O crítico pode recusar qualquer hierarquia prévia de sentidos e recursos; o tradutor, não. Ao tradutor cabe, sim, algum exercício crítico, mas este tem por função estabelecer hierarquias e delimitar prioridades. Certamente, é isso que torna a tradução poética possível, embora também a torne parcial. Mas as traduções (como, talvez em menor grau, o exercícios de crítica) caducam: não devemos ter uma só, e não precisamos ler uma só.

A infame e enfadonha intradutibilidade da poesia, assim, segundo creio, deriva de uma confusão entre as tarefas do crítico e do tradutor. São tarefas que se interseccionam, mas intersecção não é equivalência.


Sobre as formas de se traduzir poesia: Não desejo entrar nesta questão neste texto, mas uma segunda razão pela qual é falsa e exagerada a idéia da intradutibilidade da poesia reside no fato de que não há um único modo de se traduzir poesia. Este artigo lida com o que chamaria de tradução poética: a tentativa de se traduzir um poema gerando outro poema. Mas há outros modos de se fazer isso: uma tradução em prosa de um soneto pode ser empregada por um crítico para esclarecer questões acerca do texto; uma tradução em verso livre pode ser oferecida se o soneto em questão houver sido musicado, e a tradução for oferecida para que o ouvinte possa compreender o sentido do texto original e acompanhá-lo enquanto ouve a canção; uma tradução interlinear pode ser oferecida para estudantes da língua-fonte, que precisem compreender o texto-fonte da melhor maneira possível, mas que ainda necessitam de auxílio. São todas traduções, e chamá-las por outros nomes é complicar desnecessariamente o campo. Traduzir é uma tarefa que tem um objetivo, e, conforme os objetivos resultam as traduções.