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Quem pode pode: intradutibilidades brasileiras…

. 3 minutos de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
Quem pode pode: intradutibilidades brasileiras…

O K617 é um selo francês de música erudita fundado por Alain Pacquier, nomeado a partir do número atribuído no catálogo Köchel ao Adágio e Rondó para harmônica de vidro de Mozart. Sua mais famosa coleção de discos, contudo, se chama Les chemins du Baroque, e apresenta gravações de obras barrocas do Brasil e da América Latina.

Uma pequena anedota contada no libreto do disco Negro Spirituals au Brésil Baroque (dir. Jean-Christophe Frisch, 2000) me apresentou um problema tradutório até então por mim impensado. Conta-nos Frisch no texto de apresentação do programa:

O manuscrito da antífona Salve Regina [de Inácio Pereira Neves] está […] incompleto, pois falta a parte vocal da contralto. Além disso, o título traz uma indicação curiosa: “A parte de contralto sempre foi de D. Mariquinha, quem pode pode”. (Minha tradução)

Além da precisa informação etimológica de que a expressão quem pode pode data pelo menos do século XVIII (Pereira Neves faleceu em 1794), esse trecho atrai atenção sobre a expressão mesma, e nos mostra como, não obstante sua popularidade e difusão, é rica, complexa e difícil de decifrar. A nota registrada no manuscrito foi transcrita em português, e traduzida para o francês (“elle seule peut la chanter”) e para o inglês (“only she can sing it”); revertendo-as novamente ao português, temos “somente ela pode cantá-la”.

Embora seja difícil precisar, a partir de um único exemplo, o que poderia significar uma tal afirmação no século XVIII, nossa intuição atual de falantes provavelmente apontará para a incompletude de ambas as traduções. A demonstração de apreço pela cantora está longe de resumir o uso a expressão.

Tautologias são sempre difíceis, pois a flagrante obviedade de seu sentido literal convida a interpretações que ficam entre a semântica e a pragmática; dizer o exato oposto de uma obviedade circunstancial é também um dos princípios elementares da ironia. Assim, a tautologia invita inferências que pendem para o humor, o deboche e mesmo a acidez.

D. Mariquinha—a contralto com direito cativo à parte na execução da peça—, de fato, tem sua capacidade reconhecida: a parte sempre foi sua, como afirma o manuscrito. Mesmo assim, o ligeiro deboche presente no tautológico reconhecimento de seus dotes nos leva a questionar do que exatamente se faz troça aqui. Seria considerada verdadeiramente menos capaz? Não estou seguro disso. Teria algum direito ou privilégio especial, que lhe facultasse inclusive a posse de sua parte da partitura, deixando-a incompleta? Não há indícios suficientes para sustentar a conjetura.

Meu melhor palpite—genérico à expressão, não específico a este seu uso—está na natureza mesma do poder em uma sociedade escravista e autoritária como o Brasil colônia: aqui, poder como capacidade ou aptidão pareceria relativamente indistinto de poder como autoridade e privilégio; uma expressão como quem pode pode, quem não pode se sacode (não custa lembrar que, por vezes, possui a expressão esse rimático adendo) revela a absoluta arbitrariedade do poder, ao expressá-lo de modo tautológico, ou seja, como uma necessidade lógica ou um truísmo.

Nesse contexto, poder como aptidão não se separa de poder como privilégio tão completamente quanto gostaríamos—afinal, aptidões estão longe de serem inatas, sendo aprendidas a custo de tempo, dedicação e principalmente acesso a bens e recursos. Na impossibilidade de se alterar a férrea estrutura que separa como necessidade lógica os que podem dos que se sacodem, a constatação de que quem pode pode—à uma vaga e óbvia, ambígua precisamente por sua descarada clareza— não deixa de ser uma forma irônica de rebeldia, ligeiramente abaixo do absolutamente impotente. Aqui, aplicada a uma contralto; alhures, a uma viagem à Europa ou a assumir um alto e muito bem remunerado posto em algum banco aos vinte e poucos anos.

Nunca é meu desejo falar mal de tradutores ao constatar que suas traduções contêm imperfeições. Frisch e Diomède Sarl (o tradutor para o inglês), ao se depararem com esse agridoce pedaço de brasilidade, fizeram o melhor que puderam; pergunto-me inclusive onde buscaram recursos para traduzir essa singela expressão, uma vez que mesmo dicionários atuais não parecem comportá-la. Não se equivocaram de todo, não poderiam fazer mais do que fizeram. Tradutor algum derrota 500 anos de opressão com uma canetada.