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Tradução e quadrinhos: Entrevista com Érico Assis

. 5 minutos de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
Tradução e quadrinhos: Entrevista com Érico Assis

Para os leitores de histórias em quadrinhos (HQs) brasileiros, um dos nomes mais importantes da atualidade é o do tradutor gaúcho Érico Assis. Érico tem um extenso currículo de traduções, além de pesquisar o assunto (é doutor em tradução pela PGET/UFSC) e escrever sobre ele nos mais diversos meios (você pode conferir mais sobre a produção dele nos linques ao final da entrevista). Tive a oportunidade de fazer a Érico algumas perguntas sobre sua produção na entrevista abaixo.


Como você começou a traduzir HQs?

Sou jornalista e trabalhei algum tempo cobrindo o mercado de quadrinhos. Tive contato com editoras e editores a partir daquele trabalho. A Companhia das Letras estava montando um selo de quadrinhos na época [Quadrinhos na Cia] e me pediu uma consultoria. Aproveitei a oportunidade para pedir testes de tradução. Foi meu começo. O primeiro quadrinho que traduzi foi Retalhos, de Craig Thompson, que saiu pelo selo Quadrinhos na Cia. A partir dali comecei a oferecer meu serviço a outras editoras e ainda não parei.

Quando assisti uma fala sua em um Colóquio de Tradução na UFSC, há alguns anos, chamou atenção que você parece bastante organizado com seus trabalhos. Como é a sua rotina? Você faz questão de ter uma rotina?

Obrigado! Na verdade defendo que minha suposta organização não é questão de personalidade, mas de necessidade. Como sou autônomo e praticamente toda minha renda vem da tradução, preciso prestar atenção à minha produtividade – o que me levou a criar algumas planilhas de Excel onde registro o que faço todos os dias.

A rotina também acaba sendo imposição. Tenho esposa e filhos, então não posso trabalhar no horário que bem entender, e sim me encaixar nos horários de colégio, de refeições, sono etc.

Fora estas obrigações de ser organizado e ter rotina, penso que a rotina também serve de trilho para sua cabeça seguir todo dia. Fica mais fácil do que fazer as coisas cada dia de um jeito.

Como são as encomendas de tradução de HQs? Que tipo de material você recebe (arquivos, formatos. Etc.)? Como entrega a sua parte? É possível, ao longo do processo, colaborar ou entrar em contato com outros profissionais, incluindo o autor?

Em 99% dos casos, recebo as HQs em formato digital: PDFs ou formatos específicos de quadrinhos, CBR ou CBZ (que são apenas pacotes de jpegs). O que eu entrego é um DOC que preparo no Word. Minha tradução é uma espécie de roteiro, com todas as ocorrências de texto da HQ na ordem de leitura. Outra pessoa, o letreirista, vai aplicar estes textos na página de quadrinho, usando softwares de diagramação e tratamento de imagem. (Há também outros envolvidos no processo: editores, preparadores, revisores.)

Teoricamente, sim, é possível entrar em contato com outras pessoas do processo, mas na imensa maioria dos casos meu único contato é com o editor – a pessoa que contratou o trabalho e que gerencia todas as etapas. Quanto a conversar com o autor, sempre deve-se perguntar primeiro ao editor se é possível. Há editoras que preferem fazer o trâmite (que passa por agentes e editoras estrangeiras antes de chegar no autor), há editoras que liberam o tradutor para conversar com o autor e há editoras que são terminantemente contra contato com o autor.

Existem desafios específicos em se traduzir quadrinhos no sentido corriqueiro e se traduzir graphic novels? Desde o ponto de vista da tradução, há peculiaridades no processo de cada gênero?

Não. As graphic novels são apenas os quadrinhos mais voltados para venda em livraria. Tal como os quadrinhos “corriqueiros”, podem ser feitos para vários tipos de público, tratam de temas variados e se encaixam em vários gêneros. Em outras palavras, hoje em dia um gibi de banca do Batman pode ser tão elaborado, complexo e exigente do leitor – ou do tradutor – quanto uma graphic novel de livraria em capa dura e status “literário”. (Assim como há graphic novels tão fracas quanto os gibis mais fracos do Batman.)

O único porém que pode levantar-se aí é que, no caso de quadrinhos de super-herói, quadrinhos Disney ou outros que seguem certas tradições, tem-se que respeitar estas tradições na tradução: nomes de personagens, topônimos, epítetos etc. Editores são muito exigentes neste sentido, porque os leitores também são.

A pesquisa que você desenvolveu ao longo do Doutorado e alguns de seus artigos prestam muita atenção ao letreirista, a quem você confere o status de co-tradutor. Gostaria que você falasse um pouco sobre como você foi construindo seu olhar a respeito desse profissional.

Na tradução de prosa, o que o tradutor entrega é um texto muito próximo do que será publicado em um livro, uma revista etc. Claro que o texto passará por revisores, preparadores, editores, diagramadores, mas são etapas de refino de um texto que está praticamente pronto. No caso dos quadrinhos, o que defendi na tese foi que a fase do letreiramento não é mera diagramação nem mero refino do texto, mas tradução em si. A HQ não está traduzida se o texto não estiver aplicado – e devidamente aplicado – à página de quadrinho.

Na tese, exploro o que é este “devidamente aplicado”: defendo que o letreiramento é uma atividade que exige compreensão particular da linguagem dos quadrinhos e conhecimento artístico, além da parte técnica de pilotar um software de diagramação ou tratamento de imagem. Geralmente só se considera o letreirista por esta parte técnica.

Recentemente escrevi um texto sobre o trabalho de letreiramento de uma HQ, Minha Coisa Favorita é Monstro, na qual fui co-tradutor. Acho que ilustra bem como a tradução só acontece de verdade, nos quadrinhos, após o letreiramento.

Um artigo seu publicado no Blog da Cia das Letras sobre bancas de jornais me chamou atenção, e pediria que você, digamos, exercitasse sua memória um pouco: pode-se dizer que você é bem “digital”—tem sua própria página, colabora com diversos blogs, e o seu trabalho acadêmico também está online—; mesmo assim, como colecionador, imagino que tenha uma relação especial com o analógico—o gibi, com tudo o que envolve. Como foi para você, como leitor, colecionador e tradutor, ir se adaptando a esse processo de digitalização que foi transformando nossa relação com o analógico? Como você enxerga a sobrevivência do analógico (o livro físico, o gibi, por exemplo) em um mundo digitalizado?

Não sei se foi uma adaptação, pois as transformações digitais que eu vivi – só fui conhecer a internet com 15 anos – supriram necessidades que eu já tinha. O acesso à web me deu acesso à imprensa especializada que eu tanto queria e, mais tarde, aos próprios quadrinhos estrangeiros na tela do computador (tanto via lojas online quanto via pirataria). Passei anos esperando por uma tela fácil de carregar e de manipular, justamente para ler estes quadrinhos digitais, até que lançaram o iPad.

Apesar de hoje eu ler muita HQ no tablet – e praticamente só ler prosa no Kindle –, o aspecto físico do quadrinho ainda é importante. E não só por capricho, mas por uma questão de linguagem. Nas telas, todos os quadrinhos são do mesmo tamanho. Mas muitos autores de HQ pensam o formato gráfico, a manipulação da página, as páginas duplas, até o tipo de papel e encadernação de acordo com funções narrativas. O meio é a mensagem, pra ressuscitar o McLuhan. O nível de importância de ser em papel evidentemente varia de HQ para HQ, mas a maioria das HQs ainda apoia sua mensagem no fato de ser em papel, em um tamanho X, com impressão Y, e você ter que segurar com as duas mãos. Quem sabe até girar, cheirar, raspar.

O que quero dizer com isso é que, se o quadrinho não foi feito para ler em telas – e há vários exemplos neste sentido, de quadrinhos que sabem explorar os recursos de se estar numa tela – ler na tela é uma perda de elemento narrativo. O quadrinho impresso ainda existe não por causa de nostalgia, mas porque é feito para ser lido impresso.

Em um futuro próximo, o que você tem vontade de traduzir? Você tem uma wishlist de encomendas?

Uma das obras que definiu minha vida profissional, acadêmica e etc. foi Desvendando os Quadrinhos, de Scott McCloud. É uma espécie de obra teórica sobre os quadrinhos – em quadrinhos. Não vejo problemas com a tradução que circula atualmente, mas assim mesmo gostaria da experiência de ler e pensar nela como tradutor, e juntar meu nome ao livro.


Para saber mais sobre Érico: