Quando pensamos em tradução, pensamos, primeiramente em textos, orais ou escritos. Não é surpresa para ninguém, porém, que inúmeros gêneros textuais, em especial técnicos e informativos, recorrem não apenas ao uso de imagens, mas principalmente à organização de informações centrais sob a forma de imagens: gráficos, tabelas, fluxogramas, fórmulas, etc.

Ilustrações de romances ou contos são relativamente dispensáveis, mesmo quando célebres: Lewis Caroll, nos livros de Alice, faz menção a algumas figuras para evitar explicá-las, e Exupéry abre o Pequeno Príncipe com a famosíssima anedota sobre a cobra que engoliu um elefante, mas esse tipo de ancoragem do texto literário na imagem costuma ser rara; o Paraíso perdido ou a Comédia podem bem passar sem as primorosas (e talvez já cansadas) ilustrações de Gustave Doré, por vezes mais conhecidas que os textos a que adornam, e as ilustrações de Poty para a ainda necessária edição de Grande sertão: veredas pela José Olympio não aderiram a seu texto de modo duradouro ou recorrente, apesar de sua importância plástica.

Por outro lado, se estivermos falando em tradução de HQs ou graphic novels, a relação entre informações visuais e lingüísticas torna-se ainda mais complexa e especializada. Também, para vários tipos de textos técnicos, auxílios visuais de textos técnicos e científicos são indispensáveis.

Em outra ocasião, falei sobre como o formato de envio do texto—ou seja, o tipo de arquivo—pode afetar o processo de tradução. Hoje, retorno a um dos pontos então elencados: a necessidade de pensar e discutir com seu tradutor o uso de imagens que contenham texto.

Imagens contendo informação escrita podem ser extremamente sensíveis à formatação: uma tabela, quando se converte um arquivo, ou simplesmente quando este é aberto em outro computador, pode ser desformatada. Quando um arquivo em formato pdf é convertido em um formato legível por processadores de texto tais como o Word, a perda pode ser ainda mais séria, desconfigurando completamente o layout do texto e apagando suas marcas de formatação (paginação, organização dos títulos, etc.). Em alguns casos, o tradutor poderá restaurar total ou parcialmente a formatação, mas se se tratar de uma imagem—por exemplo, uma planta de algum tipo de construção ou máquina—, isso pode fugir à sua competência técnica.

A fim de evitar problemas de formatação, algumas vezes as tabelas e gráficos são convertidos em arquivos de imagem. Para os tradutores, isso significa que dados textuais que deveriam ser traduzidos não entrarão no cálculo da contagem de palavras ou toques; apesar disso, o tradutor terá de disponibilizar uma legenda ao pé da imagem, traduzindo seus conteúdo verbais.

Mais grave é o caso de tabelas ou gráficos contendo uma quantidade alta de informações numéricas. Números não precisam ser traduzidos, e tanto as ferramentas existentes de tradução assistida por computador quanto simples processadores de texto têm meios simples de se evitar mexer neles: para evitar problemas, o tradutor trabalha em torno dos números, por assim dizer. Se estas informações, porém, estiverem em uma imagem, terão de ser transcritas integralmente: isso aumenta o tempo de trabalho—não só pelo fato de ser uma tarefa extra, mas principalmente por exigir atenção redobrada durante a transcrição e sua revisão—, e também pode afetar o orçamento da encomenda. Além disso, como no caso anterior, as informações

Uma boa solução seria enviar tabelas e gráficos em mais de um formato: um formato que possa ser aberto em processador de texto (sendo, portanto, manipulável pelo tradutor) e um formado de imagem, para conferência.

Finalmente, a crescente preocupação com a inclusão vem ampliando os esforços em tornar textos orais e escritos disponíveis aos públicos surdo e cego, seja através da legendagem e da interpretação, seja através da audio-descrição. Em redes sociais, difunde-se o uso da hashtag #pracegover, que antecede descrições de imagens contidas em postagens. O mesmo tipo de sensibilização à acessibilidade pode também entrar na conta de textos escritos, exigindo que se pense na possibilidade de se descrever as imagens contidas nos textos, ao menos aquelas que não têm caráter meramente decorativo.

Assim sendo, conforme já destaquei em outros textos sobre a relação tradutor-cliente-encomenda, dialogar com seu tradutor é fundamental: converse com seu tradutor sobre os melhores formatos para o envio não só de arquivos de texto, as também das imagens, sobre o envio de arquivos separados para tabelas e gráficos, e sobre a possibilidade ou necessidade de legendas.

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